Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino

2023

Abstract

Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino Marcio Teixeira-Bastos 73 dimensionais, interativas ou passivas, e realidade virtual, aportaram um novo olhar aos estudos do passado. Assim, meios de visualização científica, análises de dados, tanto em ambientes tridimensionais quanto produtos interativos, auxiliam no processo cognitivo de pesquisadores, professores e/ou alunos (Porto, Teixeira-Bastos, Martire, 2019). Os membros do LARP vêm mantendo a atuação nessa área, abrindo frentes de diálogo com outros especialistas, indagando, em âmbito nacional, o que tem sido realizado e reconhecendo que a prática da Arqueologia Digital não é única: "é plural, ou seja, diversificada" (Martire e Porto, 2022). Contudo, em que pesem as recentes publicações, permanecem abertas algumas questões fundamentais, que receberam pouca ou nenhuma atenção pormenorizada, até o momento, nas discussões promovidas. São elas: O que é Arqueologia Digital? A Arqueologia Digital faz parte das Humanidades Digitais? O que separa a Arqueologia Digital das Humanidades Digitais? O que separa a Arqueologia Digital do resto da disciplina como um todo? Estas questões fundamentais merecem maior atenção e algumas tecituras no contexto nacional, similarmente às proposições que ocorrem nos contextos internacionais de discussão do tema (e.g., Gold, 2012; Gold e Lauren, 2016; Gold e Lauren, 2019; Graham et al., 2020). 4 Contudo, é necessário que todos os arqueólogos se envolvam com a tecnologia digital? Até certo ponto, sim, seria a resposta ideal. Eiteljorg II (2004) argumenta que, embora atualmente seja um dado adquirido que qualquer projeto de arqueologia envolverá o uso de computadores, não é certo que os diretores e professores/arqueólogos coordenadores do projeto saberão como usá-los bem ou terão, ainda, as habilidades necessárias para encontrar ajudantes que o façam. Dessa forma, assim como recebemos um conhecimento básico de estatística, geologia, geografia, análise lítica, análise cerâmica, numismática, arquitetura, teoria arqueológica ou antropológica, independentemente de nosso uso real em nossas pesquisas, precisamos, pelo menos, saber o que está disponível e quando é apropriado integrar a tecnologia e o digital ao inquérito arqueológico Procurarei, dessa forma, endereçar tais questão na parte inicial deste texto, movendo a discussão, a posteriori, para as aplicações de modelagem 3D no Oriente Médio, tendo Apollonia-Arsuf como estudo de caso, e abordando a Arqueologia com sentidos. Na sequência o foco será direcionado aos estudos em Arqueometria e a Arqueologia da luz (Teixeira-Bastos, 2013). A arqueologia da luz no período Romano-Bizantino, em Israel, lança um olhar sobre as cerâmicas romanas e a produção dos samaritanos na Planície do Sharon, que nos servirá à conclusão desse capítulo de livro. A proposta aqui é desenvolver 4) https://o-date.github.io/draft/book/index.html

1 0ANOSDELARP TRAJET ÓRI AEPERSPECTI VAS Coordenador es Mar iaI sabelD’ AgostnoFl i emi ng VagnerCarval heiroPort o ht tp: // www. l arp. mae .us p.br / Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino Marcio Teixeira-Bastos1 1. Arqueologia Digital. Perguntas Fundamentais O LARP surgiu como um laboratório temático do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo centrado na análise e va- riabilidade dos contextos arqueológicos das sociedades sob o domínio imperial romano na Antiguidade. As pesquisas arqueológicas sob a perspectiva do sur- gimento e consolidação do LARP auxiliaram a desenvolver uma série de áreas pouco exploradas na Arqueologia Clássica e, até mesmo, Arqueologia Brasileira, no cenário acadêmico nacional. Entre elas destacam-se, principalmente: Arqueo- logia Romana, tributária da Clássica, Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria (e.g., Fleming, 2014; Teixeira-Bastos, 2015, pp. 224-226). É evidente que esse desenvolvimento não se deu ao mero acaso. Ele este- ve intimamente ligado aos lastros e pastichos de estudos precedentes. Como ora argumentado, a Arqueologia Clássica no Brasil aconteceu como uma es- pécie de “cunhadismo” intelectual francês (Whitling, 2019) e a École française d’Athènes (EFA), em Atenas, foi a primeira das escolas arqueológicas estrangei- ras a contribuir diretamente para essa estruturação. Os primeiros desenvolvi- mentos aconteceram no âmbito do IHGB, ligados ao Museu Nacional, Rio de Janeiro, entre os anos de 1912-1938, através dos estudos de artefatos escavados em Veios, Itália (Bakos, 2004; Brancaglion Jr., 2004). Entretanto, foi a atuação dos arqueólogos franceses Robert H. Aubreton e Pierre Demargne, na Univer- sidade de São Paulo, que forneceram as bases formativas para o desenvolvimen- to da Arqueologia Clássica no país (Teixeira-Bastos e Lichtenberger, 2022). Demargne acompanhou a transição da arqueologia “tradicional” para uma arqueologia dita “moderna”, envolvendo-se com sistemas e métodos mais rigorosos de coleta e registo de dados arqueológicos e a precoce incorporação das ciências da computação de seu período (Funari e Tega, 2014). O renoma- do arqueólogo clássico e latinista Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses (USP) esteve sob sua batuta e foi seu aluno. Robert Aubreton, por sua vez, formou uma equipe de helenistas, agremiados como assistentes, dentre os quais, 1) DLO/FFLCH e LARP/MAE, Universidade de São Paulo. <[email protected]> 71 destaca-se a arqueóloga Haiganuch Sarian (De Castilho, 1963, p. 133-137). A professora Sarian proveu abrigo acadêmico aos três arqueólogos clássicos que se dedicaram ao estudo de Roma: Maria Isabel Fleming (1987), Pedro Paulo Funari, (1990) e Norberto Luiz Guarinelo (1993), foram, diretamente, os responsáveis por formar uma nova geração de estudiosos e catapultar a Arque- ologia Clássica e o Estudos Clássicos a outro patamar no Brasil. Os estudos pós-processuais ganharam mais espaço no cenário acadêmico nacional (Gua- rinello, 1985, Funari, 1987, 1990), além da crítica colonialista, arqueologia histórica e arqueologia pública no país (e.g. Grillo, Funari, Carvalho, 2013). Nesse sentido, Maria Isabel Fleming foi pioneira (1983-1985) na École Française de Rome (EFR), supervisionada pelo diretor da EFR Michel Gras (1973-1985 e 2003-2011). Se a aplicação da arqueometria no estudo de cole- ções arqueológicas remonta aos seus precoces estudos em 2008; os projetos digitais, por sua vez, estão presentes em sua atuação no LARP desde seu embrião, em 2011, através de Projeto de Auxílio à Pesquisa FAPESP (Proces- so:11/51184-9). Como resultado, o aplicativo 3D “DOMUS” (2013),2 disponi- bilizou a interação imersiva em uma antiga casa romana, além de contar com uma galeria de imagens e textos de apoio redigidos pelos pesquisadores do laboratório. Na trilha dos projetos digitais, a primeira tese produzida no MAE com o tema, “Ciberarqueologia em Vipasca” (Martire, 2017), foi orientada pela professora Fleming em um estudo de caso em Portugal. Muito embora não empregasse, propriamente, o termo Arqueologia Digital, o uso de tecno- logias para a reconstrução-simulação interativa arqueológica caracterizou o estudo. A tese foi avaliada por uma banca diversificada de especialistas, sendo eles Marcelo K. Zuffo, Marcelo S. Cândido, Elaina F. V. Hirata, Verônica A. S. Wesolowski, Maria Beatriz B. Florenzano, Paulo A. Deblasis, Cristina C. M. Kormikiari e Marcio Teixeira-Bastos. Ainda em 2017, Fleming afirmaria sua liderança e pioneirismo na área publicando “Arqueologia Clássica e as Humanidades Digitais no Brasil” (Fleming, Teixeira-Bastos, Porto, 2017, p. 10-28) e “Humanidades Digitais e Arqueologia: O Desenvolvimento de O Último Banquete em Herculano”3 (Fleming e Martire, 2019). O digital, um dos principais instrumentos de atuação do LARP, possi- bilitou sua maior inserção no âmbito acadêmico nacional e internacional. A aplicação de novas tecnologias, a utilização de imagens, bidimensionais ou tri- 2) Link: http://www.larp.mae.usp.br/rv/domus/ (2013). Equipe LARP: Fleming, M.I.D’A. (coord.), Martire, A.S.; Bina, T.; Teixeira-Bastos, M.; Porto, V. C.; Santos, I.D.; Trombetta, S.; Gregori, A. M.; Pereira Filho, A. C. 3) Link: http://www.larp.mae.usp.br/o-ultimo-banquete-em-herculano/download/ 2018). Equipe LARP: Fleming, M.I.D’A. (Coord.); Martire, A. S., Rocco, L.F.; Teixeira-Bastos, M.; Pereira Filho, A. C.; Cruz, M. M.; Trombetta, S.; Cafagne, T.P.; Porto, V. C.; Mouro, J.V.; Gregori, A. M.; Pina, A.D.V. 72 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas dimensionais, interativas ou passivas, e realidade virtual, aportaram um novo olhar aos estudos do passado. Assim, meios de visualização científica, análises de dados, tanto em ambientes tridimensionais quanto produtos interativos, auxiliam no processo cognitivo de pesquisadores, professores e/ou alunos (Porto, Teixeira-Bastos, Martire, 2019). Os membros do LARP vêm mantendo a atuação nessa área, abrindo frentes de diálogo com outros especialistas, in- dagando, em âmbito nacional, o que tem sido realizado e reconhecendo que a prática da Arqueologia Digital não é única: “é plural, ou seja, diversificada” (Martire e Porto, 2022). Contudo, em que pesem as recentes publicações, permanecem abertas algumas questões fundamentais, que receberam pouca ou nenhuma atenção pormenorizada, até o momento, nas discussões promo- vidas. São elas: O que é Arqueologia Digital? A Arqueologia Digital faz parte das Humanidades Digitais? O que separa a Arqueologia Digital das Huma- nidades Digitais? O que separa a Arqueologia Digital do resto da disciplina como um todo? Estas questões fundamentais merecem maior atenção e algu- mas tecituras no contexto nacional, similarmente às proposições que ocorrem nos contextos internacionais de discussão do tema (e.g., Gold, 2012; Gold e Lauren, 2016; Gold e Lauren, 2019; Graham et al., 2020).4 Contudo, é necessário que todos os arqueólogos se envolvam com a tec- nologia digital? Até certo ponto, sim, seria a resposta ideal. Eiteljorg II (2004) argumenta que, embora atualmente seja um dado adquirido que qualquer projeto de arqueologia envolverá o uso de computadores, não é certo que os diretores e professores/arqueólogos coordenadores do projeto saberão como usá-los bem ou terão, ainda, as habilidades necessárias para encontrar aju- dantes que o façam. Dessa forma, assim como recebemos um conhecimento básico de estatística, geologia, geografia, análise lítica, análise cerâmica, nu- mismática, arquitetura, teoria arqueológica ou antropológica, independente- mente de nosso uso real em nossas pesquisas, precisamos, pelo menos, saber o que está disponível e quando é apropriado integrar a tecnologia e o digital ao inquérito arqueológico Procurarei, dessa forma, endereçar tais questão na parte inicial deste tex- to, movendo a discussão, a posteriori, para as aplicações de modelagem 3D no Oriente Médio, tendo Apollonia-Arsuf como estudo de caso, e abordando a Arqueologia com sentidos. Na sequência o foco será direcionado aos estudos em Arqueometria e a Arqueologia da luz (Teixeira-Bastos, 2013). A arqueolo- gia da luz no período Romano-Bizantino, em Israel, lança um olhar sobre as cerâmicas romanas e a produção dos samaritanos na Planície do Sharon, que nos servirá à conclusão desse capítulo de livro. A proposta aqui é desenvolver 4) https://o-date.github.io/draft/book/index.html Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 73 Marcio Teixeira-Bastos interesses temáticos, métodos e premissas de pesquisa, usando evidências arqueológicas para abordagens interdisciplinares em natureza, assim como análises e novas interpretações que permitam uma melhor compreensão das sociedades antigas que ocuparam essa região no passado. 1.1 Então, o que é Arqueologia Digital? O potencial de bancos de dados computacionais foi o que mais atraiu o interesse da Arqueologia no período inicial em que a computação foi direcio- nada à ciência das coisas materiais. Ethan Watrall traçou os primeiros passos da Arqueologia Digital relacionados ao trabalho pioneiro de James Deetz, na década de 1960, utilizando computadores no MIT para realizar análises estilísti- cas de cerâmica Arikara (Deetz, 1965; Watrall, 2016). Entre as décadas de 1970 e 1980, a Arqueologia esteve preocupada sobre o quão útil seria a computação de desktop e o uso de Sistemas de Informação Geográfica (GIS) para registrar informações recolhidas pelos arqueólogos em campo. Objetivando incentivar a comunicação entre as disciplinas e fornecer um levantamento do trabalho de campo que estava sendo realizado, estimulando a discussão e o progresso futuro, em 1973, em Birmingham, Inglaterra, foi realizada a primeira conferência do Computer Applications and Quantitative Methods in Archaeology (CAA). O CAA é uma organização global que reúne arqueólogos, matemáticos e cientistas da computação, entre outros especialistas e associados. Inicial- mente, era um pequeno grupo de arqueólogos e matemáticos interessados em aplicações de computador e trabalhando no Reino Unido. Mas, atualmente, é uma grande comunidade internacional.5 A organização conta com capítulos nacionais do CAA e grupos de interesse especial. O CAA International publica procedimentos anuais que ocorrem ininterruptamente desde os anos 1970. Em 1992, a primeira conferência do CAA foi realizada fora do Reino Unido. O CAA é responsável também pela publicação do Journal of Computer Appli- cations in Archaeology (JCAA).6 É interessante notar nos primeiros volumes do JCAA a preocupação ao considerar uma forma de deduzir padrões latentes de 5) Desde 2022 o Cômite Ciêntifico Internacional do Computer Applications and Quantitative Methods in Archaeology, CAA, (Aplicações Computacionais e Métodos Quantitativos em Arqueologia) é compos- to pelos seguintes pesquisadores: Marta Lorenzon (University of Helsinki, Finlânida), Patricia Murrieta (Lancaster University, Inglaterra), Gabriele Gattiglia (Università di Pisa, Itália), Costas Papadopoulos (Maastricht University, Holanda), Elaine Sullivan (University of California Santa Cruz, Estados Unidos), Florian Thiery (Luleå University of Technology, Suécia), Iza Romanowska (Aarhus University, Dinamar- ca), Marcio Teixeira-Bastos (LARP, Universidade de São Paulo, Brasil), Alex Brandsen (Universiteit Lei- den, Holanda), Patricia Martin Rodilla (Universidade da Coruña, Espanha), Deodato Tapete (Agenzia Spaziale Italiana, Itália), Eythan Levy (Bern University, Suíça). CAA International Scientific Committee (ScC). O CAA completou 50 anos de existência em 2023. 6) https://journal.caa-international.org/ 74 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas discurso dentro de um texto, com base em padrões de palavras, ou seja, um modelo de tópico (e.g., Graham, Weingart, Milligan, 2012; Graham, 2014). Nesse período inicial de desenvolvimento esforços foram empreendidos para solidificar o conhecimento de infraestrutura necessário para processar, armazenar e consultar, de maneira eficiente, os conjuntos de dados arque- ológicos. Durante esse período, também, começou a amadurecer a ideia de reconstruções tridimensionais métricas, a partir dos planos de escavação, desenhados nos sítios. Contudo, os recursos para o treinamento e as licenças dos pacotes de softwares eram muito caros, além de que a computação tomava muito tempo. A década de 1990 permitiu uma mudança radical nesse cená- rio, a transformação das tecnologias de jogos de computador pessoal, de jogos baseados, principalmente, em texto para jogos baseados em gráficos, e a intro- dução do cd-rom, levaram o ensino de simulações digitais para a Arqueologia. Paul Reilly (1988, 1990, 1992) discutiu a arqueologia virtual e visualiza- ção de dados. Em coautoria com Stephen Shennan, em 1989, “Applying solid modeling and animated three-dimensional graphics to Archaeological problems” abor- dou como os dados primários da arqueologia fornecem bases para modelagem e simulação de realidade. Merece destaque, também, nesse período inicial, a publicação de T. Douglas Price e Anne Birgitte Gebauer (1990) “Adventures in Fugawiland: A Computerized Simulation in Archaeology”. Essa publicação e programa de computador (Windows-PC) apresenta um mapa de sítios pré-his- tóricos hipotéticos, em que os alunos aprendem os fundamentos da pesquisa arqueológica, permitindo-lhes simular experiências de trabalho de campo. É possível escolher os locais para escavar na tela, examinar o que foi encontra- do e responder a perguntas sobre suas descobertas. No livro de exercícios, os alunos aprendem os fundamentos da análise e do trabalho de campo arqueo- lógico, assim como conduzem estudos e preparam um relatório de suas inves- tigações. O trabalho recebeu sua terceira edição em 2002. Outra revista pioneira na área, a Internet Archaeology,7 publicada pela pri- meira vez em 1996, demonstrou o emaranhado entre a Arqueologia Digital e a Arqueologia Pública desde seus primórdios. Nesse sentido, sem dúvida alguma, no contexto nacional, o pioneirismo da Arqueologia Digital deve ser creditado ao professor Ivan E. Rocha (UNESP), que em 1997, encontrou e/ou “escavou” impressionantes “1000 sites de História Antiga e Arqueologia” reunidos em pu- blicação, objetivando acesso aos conhecimentos dispersos em ambiente digital, que naquele contexto histórico não estava amplamente difundido e acessível. A Arqueologia Digital acompanhou, durante os anos 2000, cada revolução subsequente da web, ou seja, a chamada web 2.0, web 3.0 etc. Emergiram os 7) https://intarch.ac.uk/ Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 75 Marcio Teixeira-Bastos questionamentos sobre os problemas de treinamento e as questões éticas, sem deixar de abordar questões de infraestrutura (Evans, Daly, 2006; Kansa, Kansa, Watrall, 2011). Em notáveis esforços para promover as transformações na educa- ção por meio de recursos recém-disponibilizados e ferramentas digitais, Evans e Daly (2006) consideraram a Arqueologia Digital como um sinônimo do uso da Tecnologia da Informação e Comunicação. A crítica reflexiva da computação a serviço da arqueologia permitiu abordar visões e práticas coloniais, levantar questionamentos mais intrigantes sobre o passado, assim como criar a cons- cientização de que nossas ferramentas digitais, seus algorítmicos e vieses podem limitar pontos de vista e/ou impor visões de mundo sobre o passado. A Arqueologia Digital passou a ter dois significados contrastantes: a arque- ologia de materiais digitais e o uso de tecnologias digitais aplicados ao inquérito arqueológico. A primeira, inclui “escavação” de código, análise de informática antiga e interpretação de materiais baseados na web. A segunda, manteve seu foco nas tecnologias digitais que servem ao estudo de sociedades humanas passadas e sua materialidade. Ao invés de uma abordagem específica, o digital, em Arqueologia, passou a ser, predominantemente, sinônimo de método. Mas, a Arqueologia Digital não é meramente sobre o uso de ferramentas digitais. Costopoulos (2016), em Frontiers in Digital Humanities, argumentou que a Arqueologia Digital se constitui como um “estado de normalidade” na prática arqueológica moderna. Fazer arqueologia digitalmente ou a computação em Arqueologia está consolidado há algum tempo entre os arqueólogos. Lincoln Mullen (2017) e Andrew Goldstone (2018) ponderam, contudo, que nosso otimismo atual sobre o ensino de facilidades técnicas é equivocado. As ferra- mentas digitais em primeiro lugar, contexto em segundo, não funcionam. De igual forma acontece se a teoria vem primeiro. A Arqueologia Digital é um campo da Arqueologia, refere-se à aplicação de várias tecnologias usadas na pesquisa, levantamento e inquérito arqueológico, registro, preservação, restau- ração, visualização, códigos, informática antiga, materiais da web, e assim por diante. Entretanto, para que qualquer coisa funcione, os conjuntos de dados devem ser cuidadosamente curados e potencializados em seu valor científico e pedagógico (Teixeira-Bastos e Rocha, 2019:131-142). Existe pouco movimento em direção à criação de uma Arqueologia Digital que possa ser um equivalente disciplinar das Humanidades Digitais. Ferramentas digitais, como bancos de dados, programas estatísticos, Desenho Assistido por Computador (CAD), e os Sistemas de Informação Geográfica (GIS), são parte das ferramentas comuns utilizadas por um arqueólogo, muito além da icônica colher de pedreiro. A tecnologia digital tem sido integrada com sucesso à disciplina, sendo amplamente utilizada por arqueólogos. Nesse sentido, é importante estar envolvido na avaliação crítica de como a tecno- 76 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas logia está mudando as formas como estudamos e a maneira como a estamos usando para informar nosso trabalho. 1.2 A Arqueologia Digital faz parte das Humanidades Digitais? O que separa a Arqueologia Digital das Humanidades Digitais? Sucessora da ideia de “computação de humanidades”, as chamadas Humanidades Digitais, ganharam, na última década, expoente espaço na academia. A Arqueologia Digital se desenvolveu, muitas vezes, entrecruzando caminhos com as Humanidades Digitais. Notadamente, a participação arque- ológica na conferência anual do Alliance of Digital Humanities Organizations (ADHO)8 tem crescido substancialmente. A ADHO, assim como o CAA, tem se reunido desde a década de 1970. Trata-se de uma organização guarda-chuva cujos objetivos são promover e apoiar a pesquisa e o ensino digital em todas as disciplinas de artes e humanidades, reunindo humanistas engajados em pesquisa digital e assistida por computador, ensino, criação e disseminação de conteúdo, em todas as áreas refletidas por seus diversos membros. Felizmente, não existe uma definição de Humanidades Digitais com a qual todos concordem. Porém, um grupo interdisciplinar, cada vez maior, tenta determinar quem pertence à “grande tenda” das Humanidades Digitais.9 As Humanidades Digitais têm tentado ativamente delinear e definir a disciplina (Gold, 2012). Trata-se, então, iminentemente, de um processo emergente e transdisciplinar (Gold e Lauren, 2016). Com o auxílio de um conjunto de ferra- mentas mais inteligentes, as Humanidades Digitais são uma maneira de pergun- tar, redefinir e responder questionamentos. Representa o compromisso meto- dológico de construir coisas como uma forma de saber, abordagens e tentativas ambiciosas de modelar o conhecimento humano. É um termo guarda-chuva usado para descrever a aplicação da tecnologia digital ao inquérito humanístico tradicional. Alcança as relações variadas globais, históricas, geográficas, arqueo- lógicas e as diferentes mídias que criam os significados e conhecimento (Gold e Lauren 2019). Mas, vai além de um vago termo guarda-chuva, emerge, também, enquanto um campo que detém um conjunto discernível de linhas de pesquisa, práticas e metodologias acadêmicas (Champion, 2015; Schreibman, Siemens, Unsworth, 2004, 2016; Fleming, Teixeira-Bastos, Porto 2017). 8) https://adho.org/ 9) É notável o desenvolvimento das Humanidades Digitais na Linguística. Veja o breve panorama sobre Humanidades Digitais fornecido pelo Grupo de Humanidades Digitais (2009) da USP. O LaViHD – Laboratório Virtual de Humanidades Digitais, atua junto ao C4AI – Centro de Inteligência Artificial da USP na construção do Corpus Aberto para Linguística e Inteligência Artificial. https://humanidadesdi- gitais.org/breve-panorama/ Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 77 Marcio Teixeira-Bastos Os arqueólogos, nesse sentido, passaram a se preocupar com o papel do digital em sua própria disciplina. A materialidade possui uma natureza anima- da por debates multivariados e forças históricas, formada por redes complexas de influência, produção, disseminação e recepção. Representar artefatos, paisagens, mundos imaginados, monumentos históricos e/ou culturais, ou sítios arqueológicos, nos auxilia a aperfeiçoar as experiências em paisagens pretéritas, vividas virtualmente (Burdick et al., 2012, p. 17-20). Auxilia a com- preensão dos sistemas de valor e relações sociais O engajamento público, por- tanto, é uma característica definidora do trabalho em Humanidades Digitais, uma vez que o trabalho digital deve ser situado em contextos sociais de acesso e controle, nas políticas de poder. As novas tecnologias e mídias desafiaram os estudiosos a repensar as formas como pesquisam, escrevem, apresentam e disseminam seus dados e suas inferências interpretativas sobre o passado (Cohen, Rosenzweig, 2005). Contudo, a maioria dos arqueólogos ainda está tão longe da grande tenda que nem consegue vê-la. As Humanidades Digitais e Arqueologia Digital, existem, portanto, tanto em “termos táticos”, quanto como uma atividade acadêmica. A cunha- gem “tática”, “guarda-chuva”, não é simplesmente ceder ao relativismo neopragmático. Em vez disso, procura posicionar as humanidades na vanguar- da de certas agendas carregadas de valor, tais como o pensamento orientado para o futuro, a colaboração, interdisciplinaridade, big data, abertura e engaja- mento público, vínculos entre indústria e educação a distância ou distribuída – enquanto, ao mesmo tempo, permite várias formas de mobilidade intra- -institucional à medida que permite diálogo comum entre as mais distintas áreas do conhecimento e ensino universitário (Kirschenbaum 2010: 55-61). As discussões sobre a confluência do digital e o neoliberalismo, além das dimen- sões éticas do trabalho digital destacam essa agenda (Allington, Brouillette, 2016; Caraher, 2012; Kansa, 2011; Greenspan, 2015). Porém, existem razões para a divisão entre Humanidades Digitais e Arqueologia Digital. A Arqueologia é uma disciplina muito mais voltada a construção de teorias. Os dados arqueológicos mais complexos e em uma escala muito maior. Os padrões que podem ser usados em humanidades, como o Dublin Core10 para organização de metadados, por exemplo, não poder ser usados em arqueologia, por causa da gama de perguntas feitas devido ao tempo, espaço e abordagem teórica. O foco na teoria e a diferença nos dados mudam a abordagem dos arqueólogos em relação ao uso do digital. Entretan- to, definitivamente, as duas disciplinas se sobrepõem no campo da história e dos clássicos. 10) https://www.dublincore.org/ 78 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas 1.3 O que separa a Arqueologia Digital do resto da disciplina como um todo? A “integração” das tecnologias de computação na Arqueologia emergiu sob a égide do modelo de acúmulo e o gerenciamento eficaz de dados arque- ológicos, utilizando-se da memória computacional disponível no momento histórico e a velocidade dos processadores, para aperfeiçoar a prática arqueo- lógica, demonstrando o “casamento” perfeito entre a Arqueologia e a Compu- tação (Daly e Evans, 2006, p. 2). No atual mundo globalizado, as ferramentas digitais e geoespaciais, baseadas na Web e de livre acesso, são agora centrais para a realização de pesquisas arqueológicas, em qualquer território ou perío- do. Embora as ferramentas e abordagens digitais devam ser integradas a todos os aspectos do nosso trabalho e permeiem a disciplina como um todo, certos aspectos do digital requerem conhecimento especializado. Adotar uma abor- dagem digital exigirá, portanto, um conjunto de habilidades diferenciadas. Entretanto, em vez de ser uma abordagem ou disciplina separada, o digi- tal ocupa função similar àquelas exercidas pelas especializações em cerâmica ou lítico, por exemplo, no inquérito arqueológico. O uso de robustos repositó- rios e bancos de dados digitais permitem o cruzamento e vinculação de dados entre si, auxiliando a fomentar novas formas de visualização desses dados e ajudando na criação de interpretações mais sutis do passado. Mas, como ora afirmado, a Arqueologia Digital não é o mero uso de ferramentas computa- cionais para auxiliar ou responder mais eficazmente às questões arqueológicas. Ela é, sobretudo, uma maneira de praticar a inclusão na arqueologia e, por consequência exercer a arqueologia pública. A Arqueologia Digital do século 21º EC é necessariamente uma arqueo- logia pública. Essa é a principal diferença dos trabalhos digitais que vieram an- tes, pois nunca se esqueça, os estudos atuais são precedidos por, pelo menos, meio século de uso inovador do poder computacional para a construção do conhecimento arqueológico (Watrall, 2016). A arqueologia pública se envolve, nesse sentido, com vários públicos onde existem claras diferenças de poder, ela procura promover a conscientização sobre o que é a arqueologia, como ela é feita e por que ela é importante entre os membros do público em geral, além, é claro, de promover o acesso a esse conhecimento, muitas vezes, pouco ou mal difundido. Evans e Daly (2006) chegam a argumentar que não existe uma arque- ologia digital, o que existe, ou pelo menos o que deveria existir, são formas inteligentes e práticas de aplicar o uso de computadores à arqueologia que melhor nos permitam perseguir, tanto nossas questões teóricas, quanto nossas aplicações metodológicas. Embora concorde com a primeira parte desse en- tendimento, a segunda parte está bastante sujeita a debate. Penso que existe, Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 79 Marcio Teixeira-Bastos sim, algo como Arqueologia Digital e as ferramentas digitais existem em uma malha de obrigações legais e culturais e, mais do que qualquer outra ferramen- ta ou coisa que os humanos já inventaram. As ferramentas digitais e seu uso não são isentos de teoria, nem sem implicações teóricas. Elas detêm a capaci- dade de exercer sua própria vitalidade e agência sobre o usuário (e.g., Hodder, 2012; Bennet, 2010). A Arqueologia Digital não deve ser uma escola distinta de pensamento ou um conhecimento secreto de grupos seletivos; mas sim, simplesmente, vista como uma arqueologia bem-feita, utilizando todas as ferramentas dispo- níveis para melhor recuperar, compreender e apresentar o passado. Cook e Compton (2018) salientam que existe, sim, uma necessidade de especialização e foco para entender e tirar proveito das complexidades da tecnologia. As tecnologias digitais não são neutras ou passivas e, portanto, o ecossistema tecnológico dentro do qual a Arqueologia funciona deve estar conectado as mudanças paradigmáticas mais amplas. Todas as arqueologias podem ser digitais, mas nem todas as arqueologias são arqueologia digital. Devido seu caráter universal, os arqueólogos devem assumir mais responsabilidade por seus dados digitais, análises e comunicações. A Arqueologia Digital situa-se, então, dentro das Humanidades Digitais, focada na descoberta e fomento de formas interessantes de pensar sobre um tema. Ela ocupa esse espectro entre a justificação e o que sabemos até aquele momento, “a descoberta mais próxima do fim da descoberta”. Afinal, usamos computadores em Arqueologia há décadas para tentar justificar ou conectar nossos saltos de lógica e o que acreditamos ser verossímil, virtualmente, co- brindo a lacuna entre nossos dados e as histórias que procuramos recontar. Por conseguinte, é necessário levantar o alerta quanto ao “fetichismo tecno- lógico” e a altivez que o domínio de determinada técnica, muitas vezes, pode causar na pesquisa, especialmente, considerando as questões de “solucionis- mo tecnológico” ou o utopismo na Arqueologia (Morozov, 2014). O ensino de Arqueologia Digital é lúdico, experiencial e deformativo, insere-se na in- terseção entre arte, humanidades digitais e arqueologia pública (e.g., Morgan, 2012; Joyce e Tringham, 2007; Trigham e Lopez, 2001; Kansa, 2011). Esse alerta é contra o uso dos conhecimentos técnicos digitais utilizados para ob- tenção de exclusividades e formação de grupos restritos face ao apelo quanto o amplo engajamento com o digital na Arqueologia. A Arqueologia Digital tem um componente digital óbvio. No entanto, o aspecto primordial, que a diferencia do uso do poder da computação para responder a questões arqueológicas, é a questão do propósito. Existe uma adi- ção implícita ao tópico dos métodos específicos que diferencia um arqueólogo usando um computador de um arqueólogo que estuda Arqueologia Digital. 80 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Nesse sentido, sempre estamos nos tornando digital. A Arqueologia Digital é, também, sobre a deformação em vez de justificação. Exatamente devido essa prática deformante, a Arqueologia Digital, alinha-se com as formas artísticas de saber. A Arqueologia Digital se entrecruza às Humanidades Digitais e, de muitas maneiras, pressagia os debates e tendências atuais desse campo de atu- ação. Acima de tudo, a Arqueologia Digital é uma arqueologia pública. Todos esses aspectos da Arqueologia Digital existem ao longo de um continuum. No restante deste capítulo, procurarei apresentar o estudo de caso de Apollonia-Arsuf, em Israel, demonstrando como essas discussões são emprega- das na aplicação de modelagem 3D para esse sítio arqueológico. Essa aborda- gem leva em conta a arqueologia com sentidos, arqueometria e a arqueologia da luz – aquela relacionada aos diversos usos dos dispositivos de iluminação no período Romano e Bizantino em Apollonia. 2. O Caso de Apollonia Digital – Aplicações de modelagem 3D, Arqueolo- gia da Luz e Arqueologia com Sentidos O LARP procurou promover e fomentar processos de escaneamento digi- tal e impressão 3D dos artefatos da coleção de clássica pertencentes ao acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. As lucernas romanas serviram a esse propósito.11 Os escaneamentos ocorreram no âmbito do LARP obje- tivando o compartilhamento e livre acesso ao acervo digital do MAE-USP.12 Além de artefatos, o acervo digital conta, também, com os primeiros expe- rimentos de fotogrametria e digitalização de sítios arqueológicos no Oriente Médio (Fig.1).13 O santuário romano de Pá, em Banias, na Alta Galileia, serviu de caso à aplicação dessas técnicas de campo. Com o aperfeiçoamen- to das discussões teóricas do LARP, seus níveis tecnológicos e operacionais, outros sítios arqueológicos receberam tratamento semelhante. Este é o caso de Apollonia, um assentamento costeiro de longa duração (longue durée) no Medi- terrâneo Oriental. O sítio foi ocupado no período calcolítico e Idade do Ferro II em Israel, mas é no contexto do período de ocupação persa que Apollonia se tornou um centro urbano costeiro, sob a hegemonia de Sídon, no Líbano. Foi durante o período helenístico que o local foi renomeado para Apollo- nia. Temos evidências de que o deus fenício Reshef já estava sendo identi- ficado com o deus grego Apolo durante o 4º século AEC. Portanto, não é surpreendente saber que o local foi influenciado pela helenização e revolução 11) https://www.youtube.com/watch?v=ChsqWvW4Sss 12) https://sketchfab.com/maeusp/models 13) https://sketchfab.com/3d-models/santuario-de-pa-detalhe-banias-israel-a6eb37380354c61b949aad2ff0a873b Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 81 Marcio Teixeira-Bastos Fig. 1. Escaneamento digital de lucerna romana de disco imperial (1º-2º sécs. EC) e lucerna sírio- -palestina (5º-8ª sécs. EC). Fotogametria e Modela- gem 3D de parte do sítio arqueológico de Banias, santuário de Pan, o deus grego dos pastores e reba- nhos, na Alta Galileia. linguística da região. Os assentamentos costeiros receberam novas denomi- nações: Arshoph tornou-se Apollonia, Dor tornou-se Dora e Jope passou a ser Ioppe. É no período romano que o local é mencionado pela primeira vez nas fontes escritas históricas. Flávio Josefo lista Apollonia entre as cidades perten- centes aos judeus sob Alexandre Jannaeus, juntamente com Jope. O período romano em Apollonia aparece em fontes literárias como Plínio (N.H., V. 13.69) e Ptolomeu (Geo. V. 15.2.), incluída na Tabula Peutingeriana (Weber, 1976, Seção X, 1U), o mapa viário do Império Romano, como uma das esta- ções intermediárias oficiais da cursus publicus (rede de estradas imperiais) de Ju- deia-Palestina (Iudaea/Palaestina). Listado como Apolloniade no mapa, localiza- do a 18 km de Jaffa e 42 km de Cesareia Marítima. Isso demonstra que o sítio serviu como um trecho oficial da rede rodoviária imperial romana na região. Os vestígios mais significativos da ocupação do período romano no local são, sem dúvida, os de uma típica mansio romana, do tipo peristilo, descoberta na Área E, na parte sul do sítio arqueológico. Cabe aqui estabelecer cronologicamente os marcos de ocupação dessa região, na porção oriental do Mediterrâneo, e tecer um breve comentário sobre a alcunha Palestina. A cronologia e nomenclatura da região, a partir do período romano, está estabelecida conforme segue abaixo: Palestina Romana – 63 AEC – 324 EC Romano Inicial – 63 AEC – 70 EC (Iudea, Judeia) Romano Médio – 70 AEC – 135 EC (Iudea-Palaestina, Judeia-Palestina) 82 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Romano Tardio – 135-324 EC (Palaestina, Palestina) Romano Bizantino – 313-636 EC (Palaestina, Palestina) 390 EC – Diocese do Oriente (Palestina Prima, Palestina Secunda, Palestina Tertia). 529-530 EC – Revolta dos Samaritanos. 614 EC – Invasão Persa de Jerusalém Islâmico – 636-1099 EC (Palestina) 636 EC – Domínio Califado de Omar Inicial (conquista Jerusalém 638 EC; Cesareia 640 EC – Divisão da região: Jordânia (Al-Ur- dunn) e a Palestina (Filastin). 691 EC – Monte do Templo (Primeiro e Segundo de Jerusalém) é substituído por Domo da Rocha – Califado de Abd el-Malik Cruzadas – 1099-1291 EC – Reino Latino de Jerusalém. Mameluco – 1291- 1516 EC (*1500 Portugueses invadem a América do Sul, surgimento do Brasil). Otomano – 1517-1917 EC Britânico – 1918-1948 EC O termo Palestina é oriundo do grego Παλιστíνη (Palaistinê), de παλαιστής (palaistês), que significa lutador. Então, Palestina, Παλιστíνη, sig- nifica “Terra do Lutador” ou “Terra do Batalhador”. Trata-se do mesmo signi- ficado, em Hebraico, de Eretz Israel, ‫לֵאָרְׂשִי ץֶרֶא‬, ou “Terra de Israel”. Devido, provavelmente, ao mito de origem hebraico, em que Jacó luta com YHWH (‫הוהי‬, πνεμα), e seu nome passa a ser Israel (Gênesis 32:29). A região, portan- to, não foi denominada “Terra dos Filisteus” pelos romanos, como o senso comum, muitas vezes, apregoa para o termo Palestina; até mesmo porque, em grego, seria Γη των Φιλισταίων (Gi ton Filistaíon) e, em Latin, Philistine, de Philistum (Filístia ou Filisteia).14 Nesse sentido, os romanos mudaram o nome da região de Ἰουδαία (Ioudaía); em latim, Iudaea para Palaestina, Παλιστíνη, como decorrência dos embates e resistência à subjugação, ocorridos na Guer- ras judaico-romanas, narradas pelo historiador do período Flávio Josefo. A Primeira Guerra Judaico-Romana (66–73 EC), é conhecida como a “Grande Revolta Judaica”. Após a Grande Revolta, Titus cunhou um número substancial de moedas com o título reverso Iudaea Capta (Fig. 2). Sob o domínio de Vespasiano a ico- nografia das moedas se transforma e a cunhagem passa dos denários de prata para os áureos (aureus, em latim, de ouro) com a mensagem Iudea Recepta (e.g., Brin 1986; Gitler, Tal 2012; 2020). Usualmente, a palmeira representa o sím- bolo da Judeia nestas cunhagens (e.g. Teixeira-Bastos e Funari 2019: 89, fig.2). 14) Note a referência de Cicero: “Dionysii mater, eius qui Syracosiorum tyrannus fuit, ut scriptum apud Philistum est, et doctum hominem et diligentem et aequalem temporum illorum” (...) CICERO, De Divinatione. 39. XX, p. 268. https://www.loebclassics.com/view/marcus_tullius_cicero-de_divinatione/1923/pb_LCL154.223.xml Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 83 Marcio Teixeira-Bastos Fig. 2. Sestércio de Vespasiano, 71 EC, com a legenda Iudea Capta (Judeia Capturada), a representação de uma mulher (a Judeia) prostrada sob uma palmeira. A figura masculina aparece triunfante, representando Roma. Denário de Tito, 79 EC. O reverso comemora seu triunfo nas guerras da Judeia, representando um cativo ajoelhado diante de um troféu de armas. Áureo de Vespasiano (69-79 EC) com a cunhagem Iudeaea Devicta (Judeia Derrotada) e Iudeaea Recepta (Judeia Recebida) (Wikpedia Commons). A Guerra de Kitos (115-117 EC), Segunda Guerra Judaico-Romana, sob o imperador Trajano, ocorreu entre os judeus que viviam fora da Judeia, comu- nidades da Diáspora, em Cirene (Cirenaica), Chipre, Mesopotâmia e Egito. Foi sufocada pelo comandante romano Lúsio Quieto. A Terceira Guerra Judaico-Romana, ou a Revolta de Bar Kokhba (132–136 EC), procurou lograr um estado judeu independente. A região, ainda, testemunhou outras revoltas judaicas, como a “Revolta judaica contra Galo” (351-352 EC), sufocada pelo comandante romano Ursicino. No 5º séc. EC. aconteceram as Revoltas Sa- maritanas contra o Império Romano-Bizantino. Posteriormente, os judeus se revoltaram, novamente, contra o imperador bizantino Heráclio, em 613 EC. O caso da edificação romana, uma mansio em Apollonia, Israel (Figs. 3-8), apresenta a oportunidade de aplicar técnicas digitais direcionadas ao estudo da luminosidade, visibilidade e aceso ao local votivo do sítio, um pequeno santu- ário, em estilo de nichos (dois), encontrados no interior do edifício. No latim literário da Roma Antiga, o termo mansio tinha o significado de “morada”, “ha- bitação”, “hospedaria”. Uma abordagem que propõe visualizações fotorrealistas 2D carrega o potencial de auxiliar em áreas fenomenológicas de pesquisa, atra- vés da arqueologia e senso de lugar; que, por sua vez, incentiva a reflexão sobre os aspectos políticos, sociais e religiosos. Além disso, contribui ao entendimento dos significados do ambiente construído. Combinar o poder e as diversas aplica- ções das tecnologias de visualização 3D com décadas de pesquisa arqueológica, 84 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Fig. 3. Modelo 3D de elevação de Israel com suas Fig. 4. Mapeamento (GIS) dos sítios arqueológicos principais regiões geográficas. do período Romano em Israel com destaque para Apollonia na margem oriental do Mar Mediterrâneo. Fig. 5. Vista da mansio romana de Apollonia, em Fig. 6. Vista da hospedaria romana em Apollonia, Israel (Foto: MTB). ao fundo as ruínas do muro medieval da cidade. (Foto: MTB). Fig. 7. Destaque para o principal corredor da edifi- Fig. 8. Perspectiva frontal da edificação romana, cação (Foto: MTB). note no fundo do corredor principal o nicho es- culpido diretamente na rocha matriz (Foto: MTB). arquitetura romana, cultura, religião e normas sociais, carrega potencial de aper- feiçoamento da percepção que temos da experiência antiga, através dos vestígios arqueológicos (Schoueri, Teixeira-Bastos, 2021, p. 499-518). 2.1. Arqueologia Sensorial e Realidade Virtual no Mundo Romano Vitrúvio (De architectura: I, II, 7) destacou que o acesso à luz solar era uma das principais considerações no planejamento de uma construção. O antigo arquiteto romano destacou que o posicionamento de cômodos em re- Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 85 Marcio Teixeira-Bastos lação ao sol (ibid. VI, IV, 1) e as estações do ano (ibid. VI, IV, 2) implicam em necessidades funcionais de calor e luz na casa e seus cômodos. Carrié (2017: 14) argumenta que a arquitetura e a luz foram usadas como um dispositivo de filtragem social e como símbolo de poder, autocelebração. Quando con- sideramos a evidência arquitetônica e de iluminação antiga, deparamos com a constatação de que os interiores sombrios eram, provavelmente, a norma. (Ellis, 1995, 2006). Com efeito, uma forte dependência em dispositivos de iluminação para iluminar espaços internos emergiu na Antiguidade. Nesse sentido, a quantidade e qualidade dos dispositivos de iluminação teriam sido uma indicação clara de riqueza e status na sociedade romana (Griffiths, 2017). As casas da elite romana contavam com interiores que priorizavam acesso à luz natural, especialmente, em áreas urbanas. Pellini (2015: 1) quando dis- corre sobre o propósito da Arqueologia Sensorial, argumenta: “somos seres encorpados, sendo assim, nossa experiência do dia a dia é uma experiência sensorial. Captamos as informações do mundo através dos sentidos. Cores, texturas, aromas, paladares, a sensação de movimento, de calor, de peso, tudo nos é apresentado através dos sentidos, sendo assim, entender como concebemos historicamente os sentidos nos permite enten- der como concebemos o mundo à nossa volta. A Arqueologia Sensorial busca entender como através da experiência sensorial com a materialidade, construímos nossas histórias, identidades, políticas, cultura e memórias.” Jay (1996) e MacGregor (1999) concordam que o estudo dos sentidos por meio da arqueologia tem se baseado em uma abordagem muito centrada no visual para as abordagens do passado, fortemente, amparada na visão e no cinestésico, ou seja, a capacidade de movimentar-se em um ambiente. Entre- tanto, devemos considerar que ambos, tanto a visão quanto o movimento, agem em conjunto com outras experiências corporais que “podem ser mani- puladas como um meio adicional para exibir poder pessoal e recursos” (Platts, 2020, p. 2-3). As considerações romanas para luz e dispositivos de iluminação operavam em muitos níveis, especialmente, em termos de função, simbolis- mo, estética e relações sociais (Ellis, 1995, 2006; Griffiths, 2017; Zarmakoupi, 2011; Dieleman, 2012; Zografou, 2010; Lapp, 2017). A relação com a luz entre os romanos estava expressa na representação da deusa romana da lareira, Vesta. A lareira, lararium, era o altar doméstico, um oratório e santuário romano. Nas habitações pré-romanas, a lareira era coloca- da no meio da casa ou perto da entrada (Ovídio, Fasti. 6.295) e atuava tanto como o coração simbólico da casa (Sofroniew, 2016), quanto uma barreira protetora para guardar “as coisas lá do fundo”, do interior da casa (Gee, 2000: 118). Frequentemente, Vesta era representada como uma chama ardente (Orr, 1969, 1978, p. 1557–1591), com raras aparições em sua forma antropomórfi- ca, figurada em pinturas, estátuas e/ou representações, em lucernas e moedas 86 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas (Figs. 9 e 10). Vesta fazia parte do grupo das doze deusas principais (ou maio- res), muito antiga, protetora da casa, presidia o fogo no lar doméstico, o cen- tro da casa, e personificava o fogo cerimonial. Fig. 9. Denário de 60 AEC; no verso Vesta com véu e uma pequena lucerna ao seu lado, o anverso apresenta a deusa togada em pé, segurando outro dispositivo de iluminação (Wikipedia Commons). Fig. 10. Representação rara de Vesta em forma humana, como a figura cen- tral do Lararium de uma padaria em Pompeia, 1º século EC (Wikipedia Commons). Essa relação simbólica com a chama e o divino acabou sendo ligada ao esta- do romano. Vesta ignes aeternum ou “fogo eterno” era mantido aceso por virgens vestais em uma lareira comum (focus publicus), para o benefício do povo romano (Stark, 2015; McElroy, 2016). Portanto, Vesta era uma das muitas divindades romanas que serviam simultaneamente aos interesses de famílias individuais e do estado romano. Rasmus Brandt (2010) argumenta que a piedade e o culto evoluíram, na transição da República para o Império, para um conglomerado de obrigações religiosas privadas. O lararium tornou-se, então, o palco da pieda- de individual de cada um, bem como sua lealdade aos seus familiares e a Roma. O espaço reflete a multiplicidade (interna e externa) das identidades. A constituição das identidades é tanto simbólica quanto social, e as lutas para afir- mar as diferentes identidades têm causas e consequências materiais (Woodward, 2003, p. 10). As relações identitárias têm eficácia cultural e produzem situações sociais (Cuche, 2002, p.182-186). A identidade enquanto uma construção so- cial acontece no interior de contextos que delimitam a posição de seus atores, Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 87 Marcio Teixeira-Bastos orientando representações e escolhas. A multivalência de ações e relações dos romanos com a luz e os dispositivos de iluminação influenciou na formação das identidades sociais e nos padrões comportamentais da sociedade romana. As escavações em Apollonia, Israel, resgataram centenas de lucernas ro- manas do tipo disco (2º-3ºsécs. EC), associadas à lareira da edificação romana encontrada no sítio. Essas escavações desenterraram lucernas com relevos zoo- mórficos (galo e touro), o que sugere o sincrético grego-egípcio da divindade Serapis (uma fusão de Apis e Osiris). Possivelmente, Helios/Apolo foi adorado em algum momento durante os períodos de ocupação do edifício (Teixeira-Bas- tos, 2011). O galo em lucernas esteve, inequivocamente, associado aos deuses e deusas do sol (por exemplo, Zeus, Leto, Artemis e Apolo). Como é o primeiro a saudar o surgimento de um novo dia, o galo esteve sempre associado a um contexto solar. Além disso, ele foi reconhecido como o pássaro sagrado de He- lios, devido sua tendência de matar pragas, como ratos e gafanhotos, além de atuar como símbolo reflexo da luz de Helios, repelindo espíritos noturnos e má sorte. A representação de Serápis, em lucernas, por sua vez, está bem documen- tada, incluindo sua correlação com Helios e adoração ao sol (Budde, 1972, p. 630–642; Derksen, 1978, p. 296–304; Kiss, 1995, p. 137–138; Pavolini e Tomei, 1994, p. 89–130; Podvin, 2003, p. 207–210; Tran tam Tinh, 1970, p. 55-80). O mesmo tipo de iconografia foi descoberto em fragmentos de lucernas escavadas no Santuário de Apolo, em Tiro, Líbano (Bikai, Fulco, Marchand, 1996). A materialidade está intimamente impregnada de relações sociais, in- corporando comportamentos e atitudes do passado. Os artefatos possuem vitalidade e agência, ou seja, a capacidade de angariar ações e demandar comportamentos. Ao analisar o conjunto de lucernas de disco de Apollonia foi possível observar e definir três tipos específicos de fratura nos objetos que puderam ser confirmados nos outros sítios arqueológicos em que o fenômeno foi presente: quebra percussiva direta, quebra percussiva facetada e a quebra percussiva em esquadro (Teixeira-Bastos, 2013, p. 35-48). Diante disso, novas interpretações para o fenômeno da quebra intencional de lucernas em Israel foram propostas (e.g., Teixeira-Bastos, 2011; Tal e Teixeira Bastos, 2012; 2015). Se o mundo material é criado e manipulado, mais ou menos, livremente por indivíduos, a materialidade é um elemento ativo da constituição do mundo e da constituição das próprias pessoas (Dobres, Robb, 2000, p.12). Artefatos, auxi- liam a materializar, restringir e empregar ações (Wobst, 1999, 2000). Sem as coi- sas materiais não seria possível o desenvolvimento social. Classificações, posições, categorias e estados são todos conceitos entremeados pela ação material (Wobst, 2000, p.47). E, nesse sentido, além de agência, em diferentes escalas, a matéria tem uma vitalidade vibrante (Bennett, 2010). A dependência entre humanos e coisas é instável e indisciplinada (humanos e coisas têm distintas vitalidades) 88 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas levando a processos de desvinculação (catálise), em que fenômenos emergentes aparecem e soluções de fixação são buscadas (e.g, Hodder, 2012, p. 158-178). O senso de lugar envolve muito mais do que uma coleção de objetos dentro de um espaço. Em vez disso, é particular, único, dinâmico e memoravelmente relacionado com outros lugares, povos e eventos (Champion e Dave 2007, p. 10). O senso de lugar e a arqueologia dos sentidos estão sendo cada vez mais aplicados aos estudos de Arqueologia Digital. Isso se deve, em grande parte, ao reconhe- cimento de que as abordagens fenomenológicas contribuem significativamente para o rigor acadêmico. Nossa experiência como seres humanos é o primeiro passo para reconstruir o passado. Os trabalhos com VR de Pujol-Tost (2019), em Catalhöyuk, na Turquia, apontaram que os diferentes elementos dentro da simu- lação, ou seja, arquitetura, objetos, realismo sensorial e personagens humanos, contribuem de forma significativa para o senso de lugar e aprendizado do usuário (Pujol-Tost, 2019, p. 16; veja também Beacham, 2020; Holtorf, 2017, p. 6). Inicialmente, o edifício peristilo em Apollonia foi interpretado como uma villa marítima romana devido a artefatos domésticos da segunda fase de ocupação, elementos arquitetônicos e sua localização à beira do penhasco, com vista para o mar, projetando, assim, as qualidades típicas da elite romana de “tranquilidade, privacidade e lazer” (Galor et al., 2009, p. 9) (Figs.11 e 12). Roll e Tal (2008) sugeriram que poderia se tratar do resultado de um processo de romanização isolado, em que um rico comerciante e sua família, encomen- daram a construção do edifício no estilo romano na costa. Fig.11. Planta de edificação romana escavada em Apollonia (Área E) com indicação dos pontos de vista (câmeras) no interior da mansio, conforme as imagens que seguem abaixo, figs.14-25 (Schoueri, Teixeira- -Bastos, 2021). Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 89 Marcio Teixeira-Bastos Fig.12. LARP Websig dos sítios romanos em Israel e o modelo de Apollonia Digital.15 Embora essa hipótese seja plausível, foi abandonada em favor da interpre- tação revisada dos escavadores e a perspectiva matizada do local, em que Apollo- nia, em sua fase inicial, foi construída, cerca de 70 EC, ao longo da estrada Jaffa-Cesareia, e, provavelmente, estabelecida nos contextos da Primeira Guerra Judaica. Essa nova interpretação levou em consideração a semelhança de Apollo- nia em construção, design, cronologia, e as lucernas da edificação do sítio arque- ológico de ‘Ein ez-Zeituna, encontrado ao longo da estrada Caesarea-Legio, que leva de Cesareia Marítima até a Baixa Galileia e o Vale do Jordão (Glick, 2006). Como Apollonia está igualmente localizada ao longo de uma importante rede rodoviária imperial (Jaffa-Cesaréia), e as lucernas romanas de disco de ‘Ein ez-Zeituna apresentam a mesma quebra intencional do período posterior (2º-4º EC), a interpretação revisada é que o edifício peristilo foi inicialmente construído e usado por um curto período de tempo como uma estação militar, algum tipo de entreposto para garantir a movimentação e permanência dos romanos no litoral, durante a Primeira Guerra Judaica. Ambos os edifícios peristilo têm o mesmo pe- ríodo de ocupação, o final do primeiro ao início do segundo século EC, e ambas as estruturas foram construídas de acordo com o padrão Pé latino (Teixeira-Bastos 2011: 160; Tal e Teixeira-Bastos, 2012, p. 109; Tal e Roll 2018, p. 314–315). Esta teoria é corroborada pela tendência de os acampamentos militares romanos serem afastados da influência corruptora da vida civil (MacMullen, 1963). Haverfield (1978, p. 173) descreveu a religião militar como um sistema 15) http://www.larp.mae.usp.br/websig/ 90 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas de observâncias cultuais prescritas para todas as unidades do exército onde quer que tenham estado estacionadas. Speidel e Dimitrova-Milceva (1978: 1546) discutiram a natureza não prescrita e espontânea deste tipo de culto militar, enquanto um apego à unidade militar, bem como, um sentimento de identidade e de pertencimento. A orientação era de que cada acampamento romano tivesse sempre um aedes, santuário sagrado, onde ficariam os estandartes, a águia e um busto ou imagem do imperador. Do 1º século EC ao 4º século EC, um voto sagrado era realizado exclusivamente ao imperador para garantir a lealdade do exército a ele, ao invés de forças pessoais de generais individuais (Frank, 1969). Nume- rosas festivais para a família imperial e os deuses romanos oficiais eram, tam- bém, observados pelas legiões romanas (Fink, Hoey, Snyder, 1940). Uma infinidade de Lares ou Genii eram adorados individualmente por soldados, em esferas privadas, incluindo os Genii centuriae e os Genii legionis (Fig. 13). Devido à natureza semipública do santuário em Apollonia-Arsuf, é mais provável que apenas Lares e/ou Genii militares oficiais fossem cultuados neste espaço (Schoueri, Teixeira-Bastos, 2021). As principais divindades can- didatas ao culto que se estabeleceu na primeira fase de ocupação desse santu- ário, de acordo com a evidência arqueológica, seriam, Apollo, Serapis, Helios ou Vesta, representada como a luz de chama e como os guardiões do oratório interno da residência ou, ainda, como a chama eterna do estado romano. Com base nos resultados da renderização de imagens, determinou-se que a visibilidade direta do santuário romano era somente possível a partir da entrada principal, o corredor leste-oeste. Ainda assim, seria necessário ilumi- nação artificial para a devida apreciação do espaço, mesmo durante o dia. Se por um lado os ambientes interiores sombrios não favoreciam a luz natural; por outro, seriam lugares de refresco e alívio, diante das altas temperaturas do Oriente Médio nessa área, com uma média de 29,8 °C, especialmente, no verão sofrendo picos de elevação. Esses e mais fatores podem ter contribuído para a percepção e sensação de um indivíduo ao chegar ou partir deste local remoto, durante o 1º -2º séculos EC. Finalmente, o uso de (re)construções experimentais e criativas baseadas nos resultados científicos de escavações fornecem ampla justificativa para a adoção de abordagens analíticas formais e informais de ambientes 3D em sítios arqueológicos em estágio avançado interpretação. Quando executadas com rigor, com base na soma da evidência arqueológica e na literatura antiga e mo- derna sobre os sítios contextualmente relacionados, as simulações virtuais 3D adicionam uma compreensão diferenciada dos lugares e processos ocorridos. As considerações fenomenológicas contribuem a melhorar a maneira de trans- mitir as informações, assim como promove interpretações mais refinadas. Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 91 Marcio Teixeira-Bastos Fig. 13. Detalhe do lararium de Apollonia iluminado por lucernas em sua fase inicial de ocupação romana (Schoueri, Teixeira-Bastos, 2021). 3. Arqueometria de Lucernas Romano-Bizantinas: A produção cerâmica dos Samaritanos Vamos, então, refinar um pouco a análise proposta nesse capítulo. Duran- te o período romano tardio e bizantino, um aumento fundamental no número de tipos regionais de lâmpadas de barro em toda Judeia-Palestina é evidenciado. A vibrante e distante economia de intercâmbios internacionais durante o perío- do bizantino ilustra claramente a correlação entre o aumento da interconectivi- dade e o desenvolvimento de redes (Lavan, 2012). O mercado romano bizantino pode ser visto como um sistema econômico de transações, troca de bens e servi- ços, mercados fragmentados e desconectados, dentro da estrutura mais restritiva de um estado tributário. Ou, ainda, o mercado enquanto uma rede abrangente de regiões relativamente dependentes das demandas e ofertas comuns. Quando se trata de lucernas, parece que as lâmpadas do tipo Darom refletiam a expres- são artística popular local que seguiu as clássicas romanas de disco que gradual- mente desapareceram, a partir do 4º séc. EC (Sussman, 2017: 1-8). A fabricação de lâmpadas de óleo no Oriente Médio ajudou a moldar novas e diferentes entidades culturais após o fim da Revolta de Bar Kokhba (132-135 EC), alterando o equilíbrio das entidades étnicas na região. Durante a 21ª campanha de escavações do Apollonia-Arsuf Excavation Project16 os trabalhos foram estendidos para além do Apollonia National Park em direção ao interior da Planície Costeira (Fig. 14) 16) https://en-humanities.tau.ac.il/apollonia-arsuf-excavation-project 92 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Fig. 14. Imagem de Satélite de Apollonia com o indicativo da área do Parque Nacional e de Apollonia Nof-Yam. As escavações de 2012, 2013 e 2017 na periferia do sítio, em Apollonia Nof-Yam, interior imediato, a leste de Apollonia/Bizantina Sozousa, acon- teceram em cooperação com Israel Antiquities Authority (IAA License No. G-74/2012). Na área CC (a maior área de escavações) foi exposta uma enorme fossa de lixo (diâm. 30 m), datada do final do período bizantino (Fig. 15). A estratificação na área foi uniforme: uma camada superficial de areia cobria uma camada de cacos (espessura máxima ca. 1 m) e uma camada subjacente de aluvião (Fig. 16, 17). A imensa cova continha numerosos artefatos, incluin- do vasos de cerâmica, cacos de vidro, resíduos industriais de vidro, objetos de metal e ossos de animais, bem como, mais de 200 lucernas samaritanas a óleo completas e mais de 700 moedas. Embora o poço de lixo seja atribuído à segunda metade do período bizantino, partes dele podem ter sido usadas apenas por curtos períodos dentro desse período (Fig. 18). Na Área CC2, a escavação encontrou uma parede construída em solo vir- gem e alinhada ao poço de lixo. A maioria das lucernas escavadas são tipologica- mente definidas como feitas por samaritanos ou, principalmente, para uso dos samaritanos (Sussman, 1983; 2017, p. 128-190). Essas lâmpadas surgiram como uma entidade cultural dentro do vácuo de poder criado pelas mudanças das entidades e poder político que controlavam o Império Romano. A presença de lucernas “samaritanas” em grandes cidades bizantinas sugere que judeus, cristãos e outros grupos étnico-religiosos, estavam usando os mesmos tipos de lâmpadas. As lucernas samaritanas eram feitas de acordo com a parte legal da lite- ratura judaica – a Halacha – com orifício de enchimento totalmente vedado Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 93 Marcio Teixeira-Bastos Fig. 15. Planta das áreas escavadas no sítio de Apollonia-Arsuf nas últimas 25 temporadas. Fig. 16. Vista aérea da escavação da lixeira na Área CC – Apollonia Nof-Yam – com destaque para o croqui da escavação e concentração do material. durante a fabricação; por conseguinte, uma lâmpada tornava-se somente utili- zável após quebrar a vedação do orifício de enchimento (Fig. 19: 1 e 2). As lucernas “samaritanas” eram fabricadas a partir de dois moldes cujos produtos eram unidos. O fabrico destas lâmpadas com um disco fino e afun- dado, que era destinado a ser quebrado para o uso, é uma das principais 94 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Fig. 17. Fotografias das escavações e os achados cerâmicos. Fonte: MTB. Fig. 18. Fotografia área da escavação total da lixeira na Área CC do sítio de Apollonia. características de sua produção e identificação como samaritano. Todas essas lucernas foram fabricadas com semelhança em forma, decoração, estilo e com o disco superior completamente plano com um ponto em seu centro – em ambos os lados, partes superiores e inferiores, do corpo das lucernas. A deco- ração foi incisa no molde superior. Os desenhos (principalmente geométricos) Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 95 Marcio Teixeira-Bastos Fig. 19. Algumas das lucernas samaritanas encontradas na escavação da Área CC, uma produção local do sítio de Apollonia, em período Romano-Bizantino. cobrem praticamente toda a superfície da parte superior do corpo das peças e este foi, provavelmente, o método mais fácil de decorar os produtos. O disco produzido completamente fechado, com muita probabilidade, está relaciona- do com a quebra intencional das lucernas romanas de disco, durante o 2º-4º séculos EC, como foi reconhecido nos mais diversos contextos e sítios arqueo- lógicos da época romana (Tal e Teixeira Bastos, 2012; 2015). As lucernas samaritanas foram descobertas majoritariamente na Área CC de escavação, porém, outras foram encontradas nas Áreas M, N e O. Obvia- mente, não existe uma tipologia perfeita e as classificações das lucernas apre- sentadas não poderiam, com certeza, carregar as mesmas ideias e pensamentos daquelas pessoas que as produziram. A tipologia é um dispositivo classificató- rio para ordenar grandes quantidades de material e simplificar a comunicação e comparação. Os atributos selecionados para definir as lucernas foram base- ados no estudo prévio publicado por Sussman (1983; 2017, p. 128-190), com algumas modificações, conforme publicado na análise da coleção de lucernas de contextos funerários (Tal e Taxel, 2015). Os principais elementos decorati- vos dos grupos estipulados e analisados em Apollonia foram as linhas radiais, escadas, padrões de espinha de peixe, círculos, semicírculos, círculos concên- tricos e pontos. Esses padrões são combinados com grande diversidade, dan- do a cada lâmpada uma aparência e identidade quase particular. Dessa forma, 96 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas sete tipos (e alguns subtipos) dos períodos romano tardio, bizantino e cruzado foram identificados. Os tipos 1, 2, 3 e 4 são Tipos de lâmpadas “samaritanas”; o tipo 5 pertence ao tipo de lâmpada “castiçal” e o tipo 6 é de uma oficina desconhecida, mas pode muito bem ser uma lâmpada “samaritana”, apesar da falta de quebra intencional do orifício de enchimento. O tipo 7 pertence ao tipo de lucerna cruzado/mameluco (e.g., Tal, Taxel, Teixeira-Bastos, 2020). Amostras de 30 lucernas samaritanas e uma tigela de incenso foram sele- cionadas para análise petrográfica (Iserlis, 2015). Foi constatada uma pequena variedade de matérias-primas na produção das lâmpadas analisadas, reforçan- do seu caráter de produção local e regional (e.g, Cesaréia Maritima, cf. Tei- xeira-Bastos 2015, p. 224-250). O ambiente de Apollonia-Arsuf, Tell Qasile, Khirbet al-Ḥadra e Tel Barukh é caracterizado por sedimentos formados por rocha kurkar, solos ḥamra e solos aluvião (Singer, 2007). A identificação de areia calcária e matriz margosa, permitiram a classificação de três tipos de pas- tas (A, B e C) utilizadas para fazer as lucernas Samaritanas. A matriz das pas- tas A e B são petrograficamente semelhantes e podem ser identificadas como originárias das proximidades. A diferença entre esses dois grupos petrográficos é a ausência de grãos arredondados a subangulares de quartzo e feldspato até 530 μm (micrômetros) do Grupo B. A matriz e os componentes não plásticos, as inclusões, contidas na pasta C, representam a litologia local de Apollonia- -Arsuf, Tell Qasile Khirbet al-Ḥadra e Tel Barukh (Iserlis, 2015, p. 223-224). A Pasta A é caracterizada pela matriz margosa e foraminífera. O silte (1–3%) inclui, principalmente, quartzo acompanhado por minerais opacos, partículas de plagioclásio, calcita, epídoto e zircônio. As inclusões sedimen- tares, o material não-plástico, deste grupo (7–30%) inclui grãos de quartzo arredondados a subangulares (5–15%), até 390μm (às vezes até 530 μm), felds- pato (1–3%) até 250–330 μm, giz arredondado a sub-arredondado e grãos de calcário (1–3%), até 500–900 μm, (raramente até 2300 μm), e fragmentos de conchas até 300–500μm (raramente até 2300 μm). Às vezes, fragmentos oca- sionais de sílex e bolas de argila são observados. A Pasta A e suas inclusões se adequam ao ambiente de Apollonia-Arsuf, Tell Qasile, Khirbet al-Ḥadra e Tel Barukh. Com base no extenso material de referência, no arranjo não plástico da pasta, a areia da Planície Costeira central é identificada. O material do tempero da Pasta A é equivalente ao arranjo mineral do tempero da Pasta C, ou seja, composta por sedimentos de areia ḥamra (areia vermelha e argilosa) do Quaternário na região. Esses sedi- mentos ocorrem ao longo de toda a Planície Costeira, entre Ashdod e a costa de Carmel. Portanto, são identificados como originários das proximidades. A principal diferença entre essas duas pastas é o margoso ou calcário (e não-fer- ruginoso) da matriz da Pasta A. A qualidade da pasta e sua matriz sugere que Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 97 Marcio Teixeira-Bastos foi coletada a alguma distância do afloramento da marga ou misturado com sedimento aluvião por ceramistas. Os afloramentos de calcário do Eoceno, Turon e Cenoman Superior, de giz e marga, estão localizados a uma distância de 12 a 15 Km dos locais amostrados (Sneh, Bartov, Rosensaft, 1998). A área a oeste da Sefelá e a leste da Planície Costeira central é coberta por aluviões quaternários e coluviões. Esses sedimentos incluem fortes compo- nentes calcários lavados da Sefelá, a Planície da Judeia, no centro-sul de Israel. A Pasta A é, portanto, um produto de sedimentos aluviais-coluviais margosos e areia costeira adicionada artificialmente. Baseado no mapa geológico e nos estudos petrográficos prévios, esta pasta é identificada como solo aluvial-colu- vial da Planície Costeira oriental e parte inferior do sopé da Judeia. Essas argilas podem ser prontamente associadas com solos aluviais mar- rons (escuros) (Dan et al., 1977; Wieder e Gvirtzman, 1999, p. 233–234; Brady e Weil, 2002, p. 100–102) da planície costeira, mais presentes em sua porção sul. Embora tais solos também ocorram no interior, as inclusões não plásticas nas amostras apontam claramente para a origem litoral deste grupo. Isso é indicado pela alta frequência e tamanho dos grãos e minerais pesados presentes nas amostras. A escassez de fragmentos de rocha calcária, feldspatos e abundância de areia da praia são outras características gerais das argilas cos- teiras. O alto componente de silte eólico aliado à presença de areia de praia, em uma textura bimodal, auxiliam a definir esse grupo petrográfico. O petrogrupo foi caracterizado como “solo marrom escuro” (Ben-Shlo- mo, 2005, p. 165-166) e “solo aluvial marrom/vermelho com inclusões costei- ras” (Stager, Master, Shloen 2011, p. 55-56; Fig. 4.1). Goren argumenta que as pastas cerâmicas que se enquadram nesse petrogrupo são uma forma de solos loess costeiro que foi alterado durante a queima (Goren, Finkelstein, Na’aman, 2004, p. 294–298). O loess é um tipo de solo sedimentar e de cor amarelada, solo fértil formado a partir da ação dos ventos, que possibilita o acúmulo de grãos finos e muito pequenos (20-50 μm) de argila, cálcio, feldspa- to, quartzo e outros minerais. Em termos arqueológicos, esse é o petrogrupo mais comum na manu- fatura de cerâmicas da Idade do Ferro em Ashkelon. Este petrogrupo se es- tende até Tel Mor, situado 6 km a sudeste de Ashdod. Apontado como uma produção local, foi identificado nas cerâmicas escavadas em um forno do período do Ferro II de ocupação desse sítio arqueológico (Master, 2003, p. 54-55; cf. Ben-Shlomo, 2005, p. 174-175). Esse mesmo petrogrupo foi iden- tificado nas cerâmicas do período do Ferro I–II de Tell eṣ-Ṣafi/Gath e nas proximidades de Kfar Menahem e Tel Miqne/Ekron, onde foram atribuídas como produções locais (Ben-Shlomo, Uziel, Maeir, 2009, p. 2267-2268; Ben- -Shlomo, 2005, p. 183-189, Petrogrupo A2; Tabelas 4.11–4.13; Master, 2003, 98 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas p. 55, n. 7). Amostras derivadas de solos marrons em Ashkelon e Ashdod são praticamente indistinguíveis, mesmo por análise química (ICP) (Ben-Shlomo, 2005, p. 178; Stager, Master, Shloen, 2011, p. 56). O grupo difere, no entanto, de seus semelhantes costeiros devido a maior presença de areia calcária (cal- cário, nari e giz), oriundos da região da Sefelá, contendo sílex e foraminíferos no corpo de argila. Além disso, a areia de quartzo tende a ser menos esférica e mais angular do que nos outros exemplos costeiros. A Pasta B é caracterizada, também, pela matriz margosa e foraminífera. O silte (1–1%) inclui quartzo, acompanhado por minerais opacos, partículas de plagioclásio, calcita, epídoto e zircônio. O arranjo não-plástico (1–3%) inclui grãos de giz e calcário (1–3%) até 90 μm e alguns grãos de quartzos arredonda- dos a subarredondados de até 80 μm. A ausência de grãos arredondados a su- bangulares de quartzo e feldspato até 530 μm como tempero marca a distinção e definição da Pasta B. O grupo B é um produto de solo aluvial-coluvial (Fig. 20). Já a Pasta C possui a matriz ferruginosa, opticamente ativa e rica em corpos opacos de minerais de ferro. O silte (1–3%) inclui, principalmente, grãos de Fig. 20. Fotomicrografias das lâminas cerâmográficas (delgadas) do Petrogrupo da Planície Costeira, cen- tral e sul, solo argiloso vermelho/Hamra. Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 99 Marcio Teixeira-Bastos quartzo. Partículas de plagioclásio, calcita, epidoto, rutilo e zircônio também foram observados. O arranjo não-plástico (5–25%) inclui quartzo arredonda- do a subangular até 400 ou 530 μm (7–15%), feldspato (3–5%, plagioclásio e microclina) até 400–480 μm, partículas de óxido (1–1%), fragmentos de rocha calcária leitosa (1–1%), alguns cristais de calcita e raríssimos fragmentos de sílex de até 100 ou 180 μm. Em raras amostras fragmentos de kurkar e concha foram observados. Com base no extenso corpo de material de referência, este grupo petrográfico é identificado como os solos ḥamra do quaternário misturado com areia costeira. Ḥamra ocorre ao longo da planície costeira entre Ashdod e o Car- melo (Dan et al. 1977; Goren, Finkelstein, Na’aman, 2004, p. 292-293; Singer, 2007; Cohen-Weinberger e Goren, 2004, p. 77-78; Gilboa, Cohen-Weinberger, Goren, 2006, p. 307, 310). O solo ḥamra da costa do Carmel contém até 50% de componente calcário (Nir, 1989, p. 12). O solo ḥamra entre Ashdod e Ce- sareia contém principalmente quartzo. Com base no mapa geológico, dados e pesquisas petrográficas publicados,17 a matriz e inclusões indicam um ambiente deposicional peculiar à Planície Costeira central (Apollonia-Arsuf, Tell Qasile, Khirbet al-Ḥadra e Tel Barukh) e seus arredores imediatos (Ravikovitch, 1969; 1981; Sneh, Bartov, Rosensaft, 1998). O petrogrupo da Planície Costeira central, Israel, conta, então, com solo argiloso vermelho/Hamra. Os solos de Hamra também aparecem esporadi- camente mais ao norte, na área entre Akko e Rosh HaNiqrah. No entanto, nas areias costeiras, os grãos calcários e não o quartzo, são o componente dominante. A cerâmica feita de Hamra foi relatada em muitos locais (incluin- do locais de fornos) ao longo da porção central do litoral sul do Levante em diferentes períodos (por exemplo, Singer-Avitz, Levy, 1992; Cohen-Weinberger e Goren, 2004, p. 78; Goren, Finkelstein, Na’aman, 2004, p. 293; Cohen- -Weinberger, 2006; Gorzalczany, 2006). Amostras de outros locais do Sharon ajudam a identificar a proveniência desse grupo petrográfico. Amostras com- parativas foram identificadas em locais na costa do Sharon, principalmente, em Tel Zeror, Tel Ifshar, e em tabuletas de Gezer e Aphek, no leste do Sharon. 3.1. As lucernas e os contextos de descarte de Apollonia no período Roma- no e Bizantino As lucernas provenientes das Áreas CC, M, N e O foram encontradas em pequenas (Áreas M, N, O) e grandes lixeiras domésticas e industriais (Área CC). As lucernas foram amplamente utilizadas como oferendas em locais de culto oficiais e não oficiais, incluindo templos, fontes sagradas e outras fontes de água 17) https://www.levantineceramics.org/ 100 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas (muitas vezes incorporadas em templos ou complexos de balneários) e santuá- rios de cavernas, onde foram colocados ou arremessados em locais designados (e.g., Bouras e Parani, 2008; Karivieri, 2010, p. 417-240, 427-429; Zissu et al. 2017). Existe consenso entre os estudiosos de que as lucernas de óleo, majorita- riamente, feitas de barro, mas feitas também de metal, em menor escala, tive- ram um papel bastante central em várias atividades de culto no grande período greco-romano, como evidenciado por materiais textuais e arqueológicos. Segundo Peña (2007, p.56-57), as lucernas teriam um curto período de uso, as lâmpadas, provavelmente, ficavam saturadas de óleo, tornando-se difí- cil de manusear e propensas a quedas e quebras, devido às paredes mais finas, característica dessas cerâmicas. Normalmente, permaneceriam em uso por um período relativamente breve de tempo, com toda a probabilidade, substancial- mente, menos de um ano. Além disso, as lucernas eram baratas, tornando o custo de substituição muito menor se comparado ao da substituição de outros vasos cerâmicos funcionais, tais como os utensílios de mesa e cozinha, trans- porte ou estocagem. Em contextos cristãos típicos, lâmpadas e velas tinham um papel central na comunidade do período bizantino e igrejas monásticas, auxiliando a ma- nipular a atmosfera litúrgica e criando um equilíbrio especial entre luzes e sombras. Os romanos foram os primeiros a fazer velas imersas em sebo, co- meçando por volta de 500 AEC. As velas eram comuns e regularmente forne- cidas como presentes durante a Saturnália. Entretanto, as lâmpadas de óleo foram a principal fonte de iluminação do período. Esse cenário somente foi alterado após as trocas comerciais mudarem com o colapso do império roma- no e o azeite, o combustível mais comum para lucernas, ficar indisponível na Europa. As velas, assim, se tornaram mais utilizadas. Porém, o Oriente Médio e o Norte da África, não experimentaram a escassez de azeite e a produção de velas permaneceu relativamente desconhecida (Telesco, 2001, p. 10) Além disso, as lucernas foram habitualmente usadas em contextos fune- rários comuns, tanto para fins funcionais quanto rituais. Elas foram acesas em túmulos de santos e/ou perto de outros locais sagrados, em frente a ícones de santos (Bouras e Parani, 2008, p. 23-24, 26-29; Nesbitt, 2012, p. 139-160). Fo- ram utilizadas dentro e fora dos túmulos, perto do falecido para homenagear e comemorar os mortos (como no costume judaico da lâmpada/vela da alma) e para iluminar seu caminho para a vida após a morte. Costumes como esses eram comuns entre a maioria dos religiosos e grupos étnicos na época romana e, em particular, na antiguidade tardia. Na Judeia-Palestina esteve, particular- mente, relacionado com as práticas tanto de politeístas, como monoteístas, cristãos, judeus e samaritanos (Tal e Taxel 2015, p. 195, 198-199; Bouras e Parani, 2008, p. 22-23). Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 101 Marcio Teixeira-Bastos A evidência literária para oferendas de lucernas descrita por Sozomeno (400 – 450 EC), monge do 5º séc. EC, pode ser seguramente identificada com os numerosos exemplares descobertos no poço sagrado do santuário de Mamre/Terebinto (e.g. Mader, 1954). Práticas rituais de ritos politeístas, pan- -religiosos e crenças populares do período romano são arqueologicamente pre- sentes nos sítios de Paneas, um templo (Berlin, 1999, p. 32-36), de Ḥammat Gader (Coen Uzzielli, 1997, p. 319), banhos, na nascente de ‘Ein Tzur, que aparentemente, funcionava como um poço dos desejos (Hirschfeld, 2000, p. 336 a 337), além do seu depósito intencional em lugares pouco acessíveis na Caverna Te‘omim (Zissu et al. 2017, pp. 111-130). Evidências textuais e arqueológicas para tais atividades indicam que ins- crições com textos mágicos, defixiones, acompanharam as lucernas, assim como a presença de moedas, no caso da Fonte de Anna Perenna, Termas de Diocle- ciano, Roma (Fig. 21), e de Apollonia Nof-Yam. Em outros casos, as lucernas foram iluminadas com pavios feitos de materiais incomuns e/ou outros tipos de óleos. Os papiros mágicos gregos do Egito, frequentemente, se referem à prática de acender uma lâmpada e rezar ou recitar um texto de adivinhação para ela (e.g., Karivieri, 2010, p. 416-420). Berlin (1999, p. 36-37), atribuiu uso semelhante às numerosas lucernas votivas encontradas na última fase (3°–5º séculos EC) dos templos de Paneas, na Alta Galileia. Deve-se, então, notar que as lucernas estavam envolvidas com a licno- mancia – adivinhação em rituais de sacrifício. Os deuses ctônicos ou espíritos do mundo subterrâneo eram convocados com a ajuda da luz e das lucernas para profetizar e enviar sonhos, assim como doenças (Karivieri, 2010, p. 416). Esses ritos, que eram praticados por uma variedade de grupos religiosos, po- deriam ter ocorrido, praticamente, em qualquer lugar; e, especialmente, em locais de culto doméstico designados e outros contextos. Conforme os esforços das pesquisas que abordaram os aspectos socioeco- nômicos e comportamentais do descarte na região nesse período (Tal e Taxel, 2012; Tal, Taxel, Jackson-Tal, 2013; Taxel et al., 2018, p. 132-155), foi sugerido que os depósitos de lixo devem ser incluídos entre os locais onde as lâmpadas eram utilizadas em múltiplos propósitos, incluindo os mágicos e de culto (Tal, Taxel, Teixeira-Bastos, 2020, p. 167). Pelo menos dois lixões ricos em lucernas acumuladas dentro de estruturas abandonadas dos períodos romano tardio e bizantino foram escavados em Ḥorvat Migdal/Tsur Natan (Matthews, Neidin- ger, Ayalon, 1990, p. 26, fig. 28). Um deles foi parcialmente escavado, o Balneário do período bizantino, em Baqa el-Gharbiya, onde foram encontradas cerca de cinquenta lucernas, em sua maioria completas, dos 5º e 7º EC, cobertas por depósitos de lixo. Em Kefar Sava, um grande depósito de lixo foi encontrado com inúmeras lucernas comple- 102 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Fig. 21. Lucernas votivas com defixiones da Fonte de Anna Perenna, Museo Nazionale Romano, Termas de Dio- cleciano, Roma. Nesse contexto, as moedas também foram encontradas associadas aos rituais. (Fotos: MTB). tas, incluindo duas com orifícios de enchimento selados, originalmente intactas (Ayalon, 1998, p. 114-116, fig. 11). Em Mishmar David, um grande depósito de lixo, do início do período islâmico inicial (meados do 7º século a meados do 8º século EC), que se acumulou ao longo de estruturas abandonadas, renderam cerca de uma dúzia de lucernas completas ou quase completas. Em um espesso depósito de lixo do mesmo período, escavado nas margens do sudeste de Yavneh, Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 103 Marcio Teixeira-Bastos mais de vinte lucernas completas ou quase completas foram encontradas; algu- mas nunca usadas antes de serem descartadas. Em poucos casos o descarte foi devido a defeitos de produção. As escavações revelaram evidências de uma indús- tria local de lâmpadas (Tal, Taxel, Texeira-Bastos, 2020, p.168). No próprio sítio arqueológico de Apollonia, inúmeras lucernas, mui- tas vezes completas, foram encontradas nos contextos das ruínas romanas e lixeiras do período bizantino, em distintas áreas do sítio e arredores. A des- coberta de muitas lucernas no depósito de lixo de Apollonia Nof-Yam, um dos maiores depósitos de lixo já escavados na Palestina de forma sistemática e controlada, reforça a ideia de incluir os contextos de descarte entre os lu- gares em que múltiplos propósitos mágicos e de culto tiveram ocasião com o auxílio de lucernas. Entre os exemplos notáveis dos contextos de descarte de Apollonia estão as lucernas romanas de disco, intencionalmente quebradas, das quais mais de 30 peças foram desenterradas completas. Elas foram escava- das na Área E (sul), logo abaixo do muro de fortificação medieval meridional, majoritariamente provenientes de um lixão (de ca. 20 m de diâmetro e 5 m de profundidade) que se acumulou sobre o edifício romano, a mansio, datada do final do 1º e 2º século EC. Um grupo de cerca de 90 lucernas “samaritanas” foi encontrado em outro poço de lixo (ca. 4 m de profundidade e pelo menos 4 m de diâmetro), localizado a leste do portão da cidade medieval. Contudo, este foi alvo de saques, pois a maioria das lucernas recolhidas nesta lixeira estava nas mãos de um colecionador particular (Sussman, 1983). Mas por que lixeiras? Aparentemente, ao longo da história humana (in- cluindo as sociedades atuais), as pessoas tiveram uma atitude complexa e um tanto ambivalente em relação ao lixo e excrementos de animais e humanos. Por um lado, as pessoas evitam ficar perto de lixões e outros locais provisórios ou terminais de acúmulo de lixo. Por outro lado, vários componentes dos resíduos podem ser tratados como altamente úteis, como fonte de materiais dignos de reutilização e reciclagem, como fertilizantes em terras agrícolas e como ingredientes em certas indústrias, como, por exemplo, nos curtumes. O mapeamento das lucernas intra-sítio, dentro do lixão escavado na Área CC, revelou que a concentração das lucernas em lugares/loci centrais do lixão (E9/Locus 30082; F6–F9/Loci 30060, 30061, 301131, 30160; G6–G7/Loci 30063, 30071), é maior do que o número de lucernas encontradas nas áreas circundantes do lixão. O fato de a lixeira ter (quase) um único grupo de lucer- nas, as “Samaritanas”, juntamente, com a quase ausência de ossos de porco, e a presença de dois anéis samaritanos inscritos, sugerem que o lixão foi usado, principalmente, por uma população samaritana. Contexto similar ao eviden- ciado, por exemplo, no lixo desenterrado do tanque de coleta do lagar desco- berto na Área O, atribuído à presença samaritana no local (Tal, 2009). 104 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Dessa forma, Tal, Taxel, Teixeira-Bastos (2020) são da opinião que essas lâmpadas não poderiam representar um descarte comum de material inuti- lizável, e argumentam que a explicação para esse fenômeno está no domínio de uma prática comportamental negligenciada em que três cenários possíveis foram sugeridos. O primeiro enquanto um repositório dos pertences pessoais de indivíduos falecidos entre os habitantes da cidade que teriam sido descarta- dos devido ao medo da impureza ou por outros motivos (não enterrados com os mortos ou mantidos por seus parentes). Os judeus e, provavelmente, os samaritanos consideravam impura as vasilhas de cerâmica que tivesse algum contato com a menstruação das mulheres, por exemplo, devido a pessoalida- de do objeto. Tal cenário explicaria a existência de outros acessórios pessoais típicos no lixão, entre eles os dois anéis samaritanos com inscrições. No segundo cenário, o descarte das lucernas seria enquanto um repositó- rio de antigos itens religiosos ou de cultos que estavam em uso na(s) sinagoga(s) samaritana(s) da cidade, e foram descartados por necessidades religiosas ou práti- cas. Claramente, esta interpretação borra os limites entre o sagrado e a natureza mundana das lucernas. Por fim, o terceiro cenário seria aquele em que as lucer- nas despejadas seriam os restos materiais de um ritual mágico, talvez baseado em alguma prescrição ou tipo de receita, cuja prática foi realizada na área de lixão – notadamente, embora não exclusivamente, executado por magos, ou feiticei- ros, profissionais. Nesse caso, a especulação nos permite atribuir um significado especial para algumas lâmpadas descartadas/depositadas nesse lixão. As lucernas poderiam ter sido usadas e/ou foram acesas enquanto um texto de adivinhação era rezado ou recitado, conforme descrito nos papiros mágicos gregos do Egito; ou poderiam ter sido usadas como recipientes para substâncias (orgânicas) que iriam se decompor, semelhante ao encanto da inscrição de Genizah. O texto de Genizah, do Cairo, é uma recitação mágica escrita em eloquente aramaico palestino. Embora datado do início do século 10ºséc. EC, este texto é, provavelmente, a cópia de uma prescrição antiga, aparentemente tardia, que se originou na Palestina. Lê-se: Um amuleto para o espírito ṬBḤYTH matar [da raiz TBḤ]. Pegue uma nova vasilha [QDWRH ḤDTH/ ‫ ]התדח הרודק‬e coloque nela sal e vi- nho e [mais dois ingredientes] de uma videira e enterre-a em um monturo [BQYQLH DZBL/ ‫ ]לבזד הלקיקב‬e escreva sobre ele: ’YŠTH QYQLY, o anjo, eu te conjuro [pelo] nome e pelo que tudo vê e santo que desceu do céu e disse: cerque a árvore e destrua-a” [Daniel 4:20], assim você deve cercar [e destruir] e prender as nádegas de NN, de suas nádegas [para o coração] e de seu coração para a cabeça, e será subjugado e humilhado até que QWST‘, o anjo, virá e o soltará. De fato, esta recitação refere-se, especificamente, a uma vasilha (QDWRH; aparentemente uma cópia incorreta da versão mais comum Arqueologia Digital, Humanidades Digitais e Arqueometria nos Estudos do Oriente Médio Romano e Bizantino 105 Marcio Teixeira-Bastos QDYRH/ ‫)הרידק‬, uma vez que um vaso, relativamente, grande e de volume considerável era necessário neste caso. Ainda assim, o uso intensivo de lucer- nas em rituais e atividades mágicas, tão profundamente enraizada no mundo mediterrâneo oriental na época romana e bizantina, permite a sugestão de que as lucernas eram igualmente usadas para ritos mágicos do tipo descrito acima no texto do encanto de Genizah. Cada um desses cenários pode ter sido associado a um número excepcional de moedas escavadas nesse lixão, de- sempenhando um papel na prática ou nos rituais. Todos os cenários descritos são válidos e podem ter ocorrido individualmente ou mesmo em conjunto. 4. Conclusão Após 25 temporadas de escavações contínuas, o sítio de Apollonia-Arsuf produziu um elevado número de lucernas completas de três depósitos consi- deráveis. A primeira lixeira, em que cerca de noventa lucernas “samaritanas” foram descobertas, em meados da década de 1970, está localizada a leste do portão da cidade medieval; no entanto, foi escavado ilicitamente e publicado seletivamente, não nos permitindo ir além de uma tipologia primária das peças (Sussman, 1983). A segunda lixeira, é a da Área E (sul), escavada de forma intermitente entre 1980 e 2000, com cerca de 30 lucernas romanas de disco completas descobertas que se acumularam no topo de uma mansio romana, datada do final do 1º século e início do 2° século EC. Essa área foi intensivamente estu- dada e os seus resultados publicados, incluindo as interpretações e simulações 3D da primeira fase de ocupação romana que foram discutidas nesse capítulo (Teixeira-Bastos, 2011; Schoueri e Teixeira-Bastos, 2021; Schoueri, 2023, neste volume), até as análises sobre o fenômeno da quebra intencional das lucernas romanas de disco (Tal, Teixeira-Bastos, 2012; 2015). A terceira lixeira é aquela escavada na Área CC, em que cerca de 130 lucernas “samaritanas” completas foram descobertas. A função das lâmpadas como utensílios de iluminação levou ao seu uso como oferendas votivas, podendo ser colocadas ou arremes- sadas em locais designados para fins funcionais ou rituais. As lucernas foram usadas por monoteístas e politeístas nos períodos romano e bizantino. Muitos aspectos do uso das lucernas e luzes foram tratados na literatura científica li- dando com distintos períodos e locais. No entanto, a função das lucernas nos lixões foi tratada, pela primeira vez, nos resultados das pesquisas arqueológi- cas em Apollonia Nof-Yam (Tal, Taxel, Teixeira-Bastos, 2020). Sem dúvida, o encaminhamento de uma pesquisa de natureza pós-processual sugere, além da interpretação do descarte utilitário, outro aspecto negligenciado em relação a presença de lucernas nos lixões da antiguidade tardia. 106 10 Anos de LARP: Trajetoria e Perspectivas Como procurei demonstrar nesse capítulo, o conjunto das abordagens teórico-metodológicas aplicadas na pesquisa arqueológica no Oriente Médio, exemplificadas nos estudos de caso em Apollonia, Israel, em seus diferentes contextos de ocupação e períodos, apresentadas no decorrer desse texto, permitiu o emprego eficaz da Arqueologia Digital, promovendo discussões enriquecedoras sobre as Humanidades Digitais e as simulações 3D. A Arque- ologia Digital carrega o caráter de Arqueologia Pública. O emprego de Arque- ometria nos estudos cerâmicos do sítio arqueológico, contribuiu com sólidos resultados para o avanço do conhecimento do período Romano e Bizantino na região. Certamente, a produção local de lucernas samaritanas, identificada pela petrografia cerâmica, esteve emaranhada não somente em questões práti- cas de iluminação, mas, também, em relações ambientais, geográficas, etno-re- ligiosas identitárias, rituais e mágicas, evidenciadas no registro material desse sítio arqueológico. Bibliografia Documentação textual FLAVIO JOSEFO. Obras completas. Introdução e tradução direta do grego de Luis Farré. Buenos Aires, Acer- vo Cultural, 1961. BIBLIA HEBRAICA. Baseada no Hebraico e A Luz do Talmud. Trad. David Gorodovits e Jairo Fridlin. 2ª ed. São Paulo: SEFER Editora, 2006. BIBLIA DE JERRUSALÉM. São Paulo: Paulus, 4ª ed., 2006. BIBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. Versão Revista e atualizada, 2ª ed. São Paulo: SBB., 1996. OVID, F.; OVID, J. G. Ovid’s Fasti. London: Heinemann, 1931. Referências ALLINGTON, D.; BROUILLETTE, S. Neoliberal Tools (and Archives): A Political History of Digital Humanities. 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