Cidades do Faium Telo Ferreira Canhão Resumo: até ao Império Médio os governantes egípcios estabelecidos em Mênfis iam frequentemente para o Faium, o local de diversão, caça e pesca preferido do rei e dos seus dignitários. No Império Médio o Faium beneficiou da estabilidade da XII dinastia, tanto ou mais do que quanto qualquer outra região egípcia. Os primeiros reis da XII dinastia fizeram amplos trabalhos hidráulicos que melhoraram muito a região, incluindo a regulação da entrada da água doce no lago Meruer até então descontrolada, o que permitiu aumentar consideravelmente a superfície cultivável. Com o tempo, a área do lago foi diminuindo e a área cultivada e irrigada foi aumentando, permitindo às populações abandonar as margens do lago, único lugar onde no princípio se estabeleciam, e avançarem para a terra recém-conquistada e extremamente fértil de toda a zona entre o Nilo e o lago Meruer, fazendo aparecer por todo o lado novos povoados. No tempo dos Ptolemeus o nível da água foi novamente rebaixado para permitir duplicar a área arável, e deu origem ao aparecimento de novas cidades à volta do lago, habitadas, principalmente, por gregos e romanos. No Faium podemos distinguir dois tipos de urbanismo: os assentamentos que se desenvolvem naturalmente ao longo do tempo e os assentamentos planificados que, para responder a uma determinada função (culto, defesa, mineração), foram construídos de uma só vez segundo um plano previamente estabelecido. Vamos ver ambos os casos e de diferentes épocas. Palavras-chave: Faium; lago Meruer; Bahr Yussef; Medinet el-Faium; urbanismo planificado. Abstract: until the Middle Kingdom, the Egyptian rulers established in Memphis often went to Faiyum, the favourite place of entertainment, hunting and fishing for the king and his dignitaries. In the Middle Kingdom, Fayum benefited from the stability of the 12th Dynasty, as much or more than any other Egyptian region. The first kings of the 12th Dynasty carried out extensive hydraulic works that greatly improved the region, including regulating the entry of fresh water into Lake Moeris, which until then had been uncontrolled, which allowed for a considerable increase in the cultivable surface. Over time, the area of the lake decreased and the cultivated and irrigated area increased, allowing the populations to abandon the lake shores, the only place where they had settled in the beginning, and move towards the newly conquered and extremely fertile land of the entire area between the Nile and Lake Moeris, causing new towns to appear everywhere. In the time of the Ptolemies, the water level was lowered again to allow the arable area to double, and this gave rise to the appearance of new cities around the lake, inhabited mainly by Greeks and Romans. In Faiyum we can distinguish two types of urbanism: the settlements that develop naturally over time and the planned settlements that, to respond to a certain function (cult, defence, mining), were built all at once according to a previously established plan. Let's see both cases and from different times. Keywords: Faiyum; Lake Moeris; Bahr Yussef; Medinet el-Faium; planned settlements. 1 O Faium é uma região do Médio Egipto localizada no deserto da Líbia entre Assiut e Mênfis, na depressão de el-Mala’a. Com uma extensão de aproximadamente 12.000 quilómetros quadrados, fica a cerca de 130 km a Sudoeste do Cairo e a 90 km de Mênfis. A capital desta província no actual Egipto é Medinet el-Faium, cujo nome original egípcio era Chedet. O seu nome recente deriva da antiga palavra egípcia Paiem ( pAywmw, «termo utilizado para designar todos os grandes lagos»),1 que no vocabulário copta se transformou em Peiom, acabando por originar o termo moderno Faium. Devido às características da região, esta capital provincial é uma das cidades mais antigas do Egipto, dominando um local de muitas escavações arqueológicas que, para além de seu património do tempo dos faraós e posterior, tem ainda numerosos vestígios da Cultura de Maadi-Buto, da Idade do Cobre, ou Calcolítico, que se desenvolveu-se no Delta e no Faium entre 3800-3200 a. C., e dos períodos de Nagada II (3500-3200 a. C.) e de Nagada I (4000-3500 a. C.).2 Localização e hidrografia principal do Faium. A região do Faium, que acolhia um lago desde o Plistoceno,3 é frequentemente considerada um oásis, mas, na realidade, não é um oásis. Antes do mais é uma grande obra hidráulica, iniciada no Império Antigo (c. 2660-2180 a. C.) com a secagem de pântanos e obtenção de terras para agricultura, melhorada no Império Médio (c. 2040-1765 a. C.), sobretudo na XII dinastia (c. 1980-1765 a. C.), e 1 Bonnamy e Sadek, 2010: 211. Ao contrário de Faulkner e Sánchez Rodrigues, que traduzem uadj-uer apenas por «mar», cuja tradução literal é «Grande Verde», Bonnamy e Sadek traduzem uadj-uer, por «grande extensão de água, mar», alargando o âmbito desta palavra (Bonnamy e Sadek, 2010: 238). Luís Araújo escreve Paiam, grafia mais antiga, e diz que significa «o mar» (Araújo, 2005: 42, 47, 91 e 185-187), para o qual a única palavra que conhecemos é uadj-uer, weD-wr, «o Grande Verde» ou «grande extensão de água, o mar», que tem diversas variantes como, por exemplo, , , ou (Faulkner, 1996: 56; Sánchez Rodríguez, 2000: 137; Bonnamy e Sadek, 2010: 238). E para Bonnamy e Sadek, a variante desta palavra com o determinativo G. N17 ( ) significa especificamente «o lago do Faium». Sobre o significado de uadj-uer, ver Canhão, 2012: 32-36. 2 Cf. Seidlmayer, 2001: 11. 3 Wildung, 1984: 166. O Plistoceno é a primeira época do período geológico designado por Quaternário, período em que vivemos actualmente, embora na época do Holoceno. O Plistoceno iniciou-se, aproximadamente, há 1,8 milhões de anos e terminou, aproximadamente, há 10 mil anos, durante o qual se detectaram os primeiros vestígios do Homo sapiens, sendo considerado o início da Pré-história. As últimas descobertas de fósseis de Homo sapiens, em Marrocos, são datados de 300.000 a 350.000 anos, sendo os mais antigos já encontrados (Garcia, 1992: 36-37). 2 concluída no tempo dos Ptolemeus, que completaram o complexo sistema de canais do Faium, desenvolvendo ainda mais o abastecimento de água à região e aumentando a extensão de terreno cultivável. O conjunto de canais e diques para drenar a região do Faium e reter aí as águas da inundação, transformaram um imenso pântano numa região fértil, e melhoraram o lago Meruer (meruer, «o grande lago»), também chamado de Cheresi («o lago do Sul»), nomes do actual lago Birket Karun na Antiguidade. Povoado desde o Paleolítico tardio, este enorme reservatório de água, tinha então uma superfície de 114 quilómetros quadrados e uma capacidade para 275 milhões de metros cúbicos de água. Era alimentado de Agosto a Dezembro pelo único braço natural do rio Nilo, o Bahr Yussef («rio de José»), que se inicia pouco antes de Tell el-Amarna, mais precisamente na moderna povoação de Dairu. A inclinação natural dos seus 400 quilómetros é no sentido da grande depressão do Faium, penetrando aí pela região de el-Lahun. Entre Março e Maio ia-se esvaziando, permitindo a partir de Abril as culturas de Verão, na parte do seu fundo seco.4 Embora a água que recebe do Nilo e que enche os canais de irrigação seja água doce, o raso lago Birket Karun, que no Paleolítico era de água doce, o que explica os terrenos recuperados poderem ser cultiváveis, tem vindo a aumentar o seu nível de salinidade desde a década de 1920, tendo hoje um nível muito semelhante ao do mar. Há duas possibilidades para esta salinidade: ou o sal se desenvolve no próprio lago ou, o mais provável, é haver «entrada de águas subterrâneas salinas».5 Os próprios peixes aí existentes são peixes que podem viver em águas salobras, uma água entre o doce e o salgado. Pescadores em pé no meio do lago Birket Karun em 2001. Foto do autor. 4 C. Straub-Seeber, 2001: 379. https://www.researchgate.net/publication/32894043_Environmental_Changes_at_the_Desert_Margin_An_Assessment _of_Recent_Paleolimnological_Records_in_Lake_Qarun_Middle_Egypt . 5 3 Com o tempo, o lago foi diminuído de tamanho e alterando a altitude em relação ao mar: no Neolítico estava 18 metros acima do nível do mar e hoje, surpreendentemente, fica 45 metros abaixo dele, apresentando uma diferença de 63 metros, conforme podemos verificar nos terraços datados do Neolítico. Pelo que sabemos através de um monumento que Amenenhat III mandou erigir na parte sul do lago, em Biahmu, constituído por dois grandes colossos de quartzito à sua imagem, que «quando se realizaram os primeiros estudos arqueológicos no local, estas estátuas encontravam-se há muito destruídas, mas alguns fragmentos recolhidos no local permitem estimar a sua altura inicial em cerca de 11 m.»,6 e que com os pódios ascendiam a 19,5 metros do solo e eram rodeados por um gran- O comprido braço natural do Nilo, o Bahr Yussef. de recinto de 34 m x 39 m. A água chegava aqui estando os dois colossos na margem do lago «voltados para a extensão de água»,7 tendo o lago aproximadamente o dobro do tamanho e havendo muito menos área cultivada. Também a cidade de Kasr el-Sagha, a norte do lago, já esteve na sua margem e hoje está a 8 quilómetros de distância.8 É exactamente o Bahr Yussef que ao ligar o Faium ao vale do Nilo, impede o Faium de ser considerado um oásis como Siuá ou Bahareia, visíveis no mapa, pois embora seja uma área de vegetação mais ou menos isolada num deserto, não depende de nenhuma nascente de água doce aí existente, mas da sua ligação ao rio. É claro que podemos chamá-lo de «oásis fluvial» como fez Christine Straub-Seeber, mas o certo é que a sua nascente não fica aí, estando a 6 Tallet, 2005: 103 Tallet, 2005: 103; Snape, 2014:168; Leclant, 2005: 809. 8 Araújo, 2001: 361. 7 4 De Sakara ao Faium. Ainda no vale do Nilo, de passagem pela pirâmide de Meidum, a primeira das três pirâmides que o fundador da IV dinastia, Seneferu (c. 2600-2576 a. C.), mandou construir, onde é possível ver o contraste entre a orla do deserto e o vale luxuriante. Foto do autor. mais de 6.000 quilómetros de distância.9 É o mesmo que acontece com qualquer porção de terra que entra pelo mar a dentro e está rodeada de água por todos os lados menos por um, porque o seu istmo a liga ao continente. Chamamos-lhe península e não ilha! O Faium começou por ser uma bacia de água sem vida, onde a cheia anual através do único afluente do Nilo no Egipto depositava grandes quantidades de água doce, acabando por se transformar num jardim fértil. O Bahr Yussef antes de se tornar um canal, ou de ter um nome, era apenas uma ramificação natural do Nilo, pela qual escorria a inundação para a depressão de el-Mala’a. Essa hidrovia e o ambiente fértil para a vida selvagem que ela criou, atraíram desde cedo os seres humanos 9 Vale a pena inserir aqui um pequeno texto que escrevi Setembro de 2007, num Boletim da ACAPE, agora de difícil acesso: «Entre 23 e 30 de Maio de 2007 realizou-se aquela que os cientistas brasileiros e peruanos chamaram de Primeira Expedição Científica ao Nascimento do rio Amazonas. Com base nessa aventura aos glaciares dos Andes, que seguiu o rio descoberto em 1542 pelo espanhol Francisco de Orellana, o director-geral de Cartografia do Instituto Geográfico Nacional do Peru, Ciro Sierra, informou que os resultados oficiais, já reconhecidos por instituições como a National Geographic, serão apresentados à comunidade científica internacional para colocar o rio Amazonas como o mais comprido do mundo. O rio Amazonas ultrapassou os 6.671 quilómetros do rio Nilo por um quilómetro, passando a ser o rio mais comprido do mundo com 6.672 quilómetros. Agora, com os GPS, cada vez são mais precisas as medições! Mas como conheço os homens, viro-me para ti ó Hapi! Tu que dás vida ao Egipto, dá juízo aos homens e não permitas que alguns dos teus mais acérrimos defensores encetem uma guerra desnecessária. Tu que nasceste da união entre o Nilo Branco, o Nilo Azul e o Atbara, e banhas o Egipto ao longo de 1.200 quilómetros, livra-nos de ouvir coisas do tipo: o mais longo dos três, o Nilo Branco, nasce no lago Vitória distando do Mediterrâneo 6.671 quilómetros, mas o próprio lago Vitória tem como principal tributário o rio Kagera, que nasce no Burundi, a norte do lago Tanganica, na confluência dos rios Niavarongo e Ruvuvu e, por isso, o Nilo tem mais 23 quilómetros do que o Amazonas, pois da sua fonte mais remota, do Burundi, são 6.695 quilómetros. E isso que interessa? Deixa lá o Nilo começar nas Quedas de Ripon, à saída do lago Vitória! Será que depois também vão querer levar todo o Nilo para o Egipto? Ó Hapi, já basta o que te fizeram em Assuão! Aquela 1ª catarata seca mete dó. E as pirâmides que já não podem molhar os pés nas tuas águas? Obrigaram-te a abandonar Sírio e tu deixaste de marcar o tempo! Eu sei das vantagens que tudo isso trouxe à vida moderna, mas há quem não consiga conciliar todas as coisas! Tu ainda dás vida ao Egipto. Ainda és tu que irrigas os prados criados por Ré, que fazes viver o gado e crias o trigo. Tu, só tu. Sem ti não haveria o Egipto e todos nós estaríamos a fazer outra coisa qualquer.», Boletim nº 7, 2007: 2-3. 5 para a área. O fluxo da água levava consigo o rico solo do leito do rio Nilo, o húmus, que assentava no lago e ao seu redor e fazia brotar a vegetação ao longo de suas margens. A água e a vida vegetal atraíam os animais que fizeram dessa área a sua casa, e que traziam outros em busca de presas ou simplesmente procurando água numa região árida. Os pântanos e bosques que se formaram eram o refúgio de uma fauna variada, sendo também abundantes as espécies piscícolas no lago. A existência de vida humana na região de Faium data do período húmido do Paleolítico Inferior (120.000-90.000 a. C.), do tempo do Homo Erectus, a quem se atribui «a paternidade da cultura das indústrias acheulenses»,10 mas só nos finais do Paleolítico, no Paleolítico Superior, entre 25.000 e 10.000 anos a. C., é possível reconhecer um espaço cultural com características próprias, embora as comunidades agrárias aí estabelecidas sejam mais tardias, só surgindo no Egipto os primeiros grupos culturais do Neolítico nos finais do 6º e no 5º milénio. A cerâmica aí encontrada data de 5.500 a. C. e as ruínas de uma antiga comunidade agrícola do Faium é de cerca de 5.200 a. C.11 Por volta de 5.000 a. C. o Faium era um território exuberante onde as pessoas viviam com bastante conforto, com muita sombra causada pelas folhas altas de numerosas árvores, e abundância de água e comida, onde os produtos agrícolas, os peixes e os animais selvagens permitiam uma dieta variada. Parece ter sido um processo de colonização interno e de fusão de elementos culturais diversos, que fez surgir uma forma de cultura independente e genuinamente egípcia, que conheceu no 4º milénio um desenvolvimento bastante vigoroso, e que, na passagem para o 3º milénio, conduziu à criação do estado faraónico e da civilização egípcia. Em meados deste último milénio um aumento progressivo de desertificação originou a situação climática actual, tornando o vale do Nilo um espaço vital cada vez mais delimitado.12 Como podemos ver pelos vestígios arqueológicos, do Neolítico ao final do Império Antigo só as margens do enorme lago eram habitadas, mas do ponto de vista de obras hidráulicas, a que os Egípcios já tinham dedicado alguma atenção no Império Antigo, os reis do Império Médio regularam a entrada da água permitindo aumentar consideravelmente a superfície cultivável, até então descontrolada.13 Essa regulação implicou novamente outras grandes obras hidráulicas. No Império Médio, considera- 10 Midant-Reynes, 1992: 38. O período da história que antecede a invenção da escrita, indo do começo dos tempos históricos até aproximadamente em 3.500 a. C. designamos por pré-história. Divide-se em dois períodos: a Idade da Pedra, a mais antiga e longa, e a Idade dos Metais, a mais recente e curta. Por sua vez, na Idade da Pedra, fazem-se quatro divisões de trabalho que não representam culturas comuns, mas métodos básicos de fabricação de ferramentas de pedra que eram compartilhados em grande parte do Velho Mundo, sendo a mais antiga a indústria olduvaiense, seguindo-se os artefactos acheulenses, mais avançados do que os anteriores, ambas do Paleolítico Inferior, depois, com mais sofisticação, a tecnologia do Paleolítico Médio designada por indústria musteriense, e, por fim, a cultura magdaleniana, do Paleolítico Superior. Enquanto a cultura olduvaiense apareceu no leste da África há cerca de 2,5 milhões de anos, a cultura acheulense é datada de um período entre 1,5 milhões e 200.000 anos atrás. Contudo, a datação precisa da pré-história do antigo Egipto é difícil de se fazer porque «A humanidade entrou na “terra dos faraós” singularmente silenciosa; silêncio devido à erosão dos sítios, sem dúvida; ao estado de pesquisa, provavelmente.», Midant-Reynes, 1992: 38. 11 Seidlmayer, 2001: 10 e 11; Vercoutter, 1992: 89-100 e 115. 12 Seidlmayer, 2001: 10. 13 Wildung, 1984: 166. 6 Lago Birket Karun. Foto do autor. do por Dietrich Wildug a «idade de ouro»,14 na qual a cultura egípcia produziu alguns dos seus melhores trabalhos, o Faium beneficiou da estabilidade da XII dinastia, tanto ou mais do que qualquer outra região egípcia. O fundador da XII dinastia e do Império Médio (c. 1980-1765 a. C), Amenemhat I (c. 1980-1950 a. C), transferiu a capital de Tebas para a região do Faium, mais precisamente para Iti-taui, passando os reis da XII dinastia a prestarem atenção especial à região. Contudo, a primeira aproximação dos soberanos ao Faium foi ainda anterior, pois no Primeiro Período Intermediário, mais precisamente cerca de 2160 a. C., quando o governador Kheti se proclamou rei do Alto e do Baixo Egipto em Henen-Nesut, a «Cidade da Criança real», a quem os Ptolemeus chamaram de Heracleópolis e hoje se chama Ihnasia el-Medina, ele ocupou Mênfis acabando com a dinastia menfita ao expulsar o último rei da VIII dinastia e iniciando a IX dinastia.15 A acção de Amenemhat I e de seu filho Senuseret I, ainda se encontra em alguns locais da região, como em Kiman Farés, hoje integrada na actual cidade de Medinet el-Faium, e em Abgig, mais a oeste, que têm vestígios com os seus nomes. Os textos deste período falam do Faium ainda como um local de recreio e de jogos, como é o caso dos anais de Amenemhat II, o terceiro rei da XII dinastia, encontrados em Mênfis, que mencionam uma pescaria real que parece ter ocorrido ali no final do seu reinado. Há igualmente uma composição literária do Império Médio conhecida por «Prazeres da Caça e da Pesca» que aparenta também passar-se no Faium.16 Foi Amenemaht II, que continuou «o 14 Wildung, 1984. Padró, 2011: 414. 16 Tallet, 2005: 99. 15 7 processo de alargamento do lago Faium e da sua envolvente zona irrigável»,17 especialmente as obras de irrigação representadas pela barragem de Gadallah,18 de que ainda há vestígios entre el-Lahun e Medinet el-Gurab,19 tendo sido depois o seu filho, Senuseret II, quem continuou essas obras hidráulicas e dominou a foz do Bahr Youssef construindo uma represa com uma comporta reguladora em el-Lahun, perto da sua pirâmide à entrada do Faium, permitindo às populações abandonar as margens do lago, único lugar onde até aí se estabeleciam, e avançarem para a terra recém-conquistada e extremamente fértil de toda a zona entre o Nilo e o Faium até Medinet el-Faium.20 Foi este ambiente, certamente, que fez com que o Faium fosse durante tanto tempo o local de diversão, caça e pesca do rei e seus dignitários vindos de Mênfis,21 pois estando estabelecidos em Mênfis, era fácil deslocarem-se para aí com frequência para se dedicarem a essas actividades. Vindos do Nilo e subindo o Bahr Yussef, os crocodilos abundavam nos canais e no lago, que se tornou um local de culto do deus-crocodilo Sobek. Depois de uma certa estagnação e, por vezes, mesmo declínio, no Império Novo (c. 1550-1070 a. C.), no Terceiro Período Intermediário (1070-664 a. C.) e na Época Baixa (664-343 a. C.), dois milénios à frente, no tempo dos Ptolemeus (304-30 a. C),22 o nível da água foi novamente rebaixado para, mais uma vez, permitir duplicar a área arável e o aparecimento de novas cidades à volta do lago, agora habitadas, sobretudo, por gregos e romanos. Um dos canais do Faium, ladeado de culturas e, ao fundo, o deserto. Foto do autor. 17 Araújo, 2011:104-105. Snape, 2014: 168-169. 19 Tallet, 2005: 101. 20 Wildung, 1984: 166; Araújo, 2001: 361. 21 Grimal, 1988: 220. 22 Entre 343 e 304 a. C. houve o 2º período persa (343-332 a. C.), tendo sido o 1º período persa a XXVII dinastia (525-404 a. C.), e a dinastia macedónica (332- 304 a. C.) no início do período Greco-romano (332 a. C.-395 d. C). 18 8 Como hoje se verifica, era uma produção variada e cuidada. Foto do autor. Já então, devido à sua extrema fertilidade, o Faium era uma região importante na economia egípcia, era o pomar do Egipto que produzia vinhos, frutas, verduras e numerosas outras plantas, incluindo papiros, que cresciam em abundância, além de pequenos animais,23 vendo-se hoje as suas frutas por todo o lado em pequenos negócios de esquina, os bares de sumos, onde se bebem sumos naturais e frescos e comem pequenos lanches em Medinet el-Faium, o coração do Faium. Recentemente, nos princípios do século XXI, diversos locais arqueológicos do Faium têm estado sujeitos a obras de restauro com a ideia de atrair o turismo à região, até agora uma das menos visitadas do Egipto. Bar de sumos em Medinet el-Faium cheio de frutos pendurados para serem comidos ou transformados em bebidas frescas. Foto do autor. 23 Wildung, 1984: 166 e 168. 9 Os locais mais importantes do Faium Vista geral do Faium. A ocupação contínua dos mesmos locais da planície aluvial desde a Antiguidade, com aumentos regulares das superfícies agrícolas úteis e períodos de fortes crescimentos demográficos, foram ocultando, ou destruindo, os sítios antigos, impedindo o seu estudo. Todas as aldeias rurais anteriores ao Período Greco-romano, desapareceram antes de poderem ser estudadas. Ao contrário das casas dos deuses e das casas dos defuntos, os templos e as pirâmides, feitos de pedra cuja extracção era muito cara, as casas para os vivos eram feitas sobretudo de um material que embora fosse resistente, barato, acessível e de fabrico simples, era naturalmente descartável devido à facilidade com que permitia a reconstrução, e tinha pouca resistência à passagem do tempo: os tijolos de argila ou adobes. Eram usados na esmagadora maioria das habitações de todas as classes e tipos de egípcios, desde os habitantes das cidades aos reis, servindo também para construir celeiros e armazéns e, até, os fortes dos soldados. Alguns elementos adicionais podiam ser utilizados, como a madeira para as vigas dos telhados, podendo os mais carenciados usar simples ramos de palma, ou pedras para molduras de portas ou bases de colunas, produtos de luxo na época. Se as casas dos mais afortunados podiam ter vigas, janelas e portas de madeira, as casas mais humildes implicavam quantias modestas e rápida construção. 10 Os adobes eram o material de construção ideal para o antigo Egipto. Aumentando a família, facilmente se acrescentava mais espaço a uma habitação ou, até, se fazia uma casa nova. Bastava medir um terreno, fazer os adobes necessários e colocá-los no lugar. Podia-se construir onde se quisesse, desde que ninguém se opusesse. Aliás, como é fácil verificar ainda hoje em diversas regiões, esta ainda é uma prática no Egipto, onde muitas habitações nunca estão acabadas, permitindo sempre acrescentar mais andares, à medida das necessidades provocadas pelo nascimento de mais filhos, ou pelo seu casamento. Bastava ter um molde de madeira para fazer os adobes, com a forma de uma simples moldura rectangular aberta dos dois lados. Assente no chão, era cheia com uma mistura de argila (terra, água e palha), alisada e retirada, deixando o adobe húmido firme no chão a secar. A palha ajudava a dar e manter a forma, e tornava o adobe poroso para que secasse sem rachar nem encolher. A arqueologia experimental permitiu concluir que a melhor mistura era 1 metro cúbico de terra, com ½ metro cúbico de areia e 20 quilogramas de palha. Antes de poderem ser utilizados os adobes eram deixados a secar cerca de seis dias, três dias para cada lado. No Papiro Reisner I, os adobes usados no Império Médio para um projecto oficial de Senuseret I, mediam cerca de 42 x 21 x x 15 cm.24 Também no túmulo da XVIII dinastia de Rekhmiré, em Cheikh Abd el-Gurna, em Tebas Ocidental, é possível ver uma pintura de um grupo de operários a fazerem tijolos de argila. Dois levam água em grandes recipientes, outro faz a mistura, outro está sobre a mistura de argila e palha, outro enche os moldes de madeira e junta à fileira de adobes que estão a secar, quando outros os levam aos construtores.25 Operários fazendo adobes para a construção. Túmulo de Rekhmiré (TT100), Cheikh Abd el-Gurna. XVIII dinastia. Nos núcleos populacionais do Faium podemos distinguir dois tipos de urbanismo: os assentamentos que se desenvolveram naturalmente ao longo do tempo e os assentamentos planificados que, para responderem a uma determinada função (culto, defesa, mineração), foram construídos de uma só vez segundo um plano previamente estabelecido. Se os primeiros são mais numerosos, também são menos conhecidos, pois os locais de implantação na planície aluvial de muita gente e a ocupação em continuidade da maioria deles desde a Antiguidade, foram-nos alterando sistematicamente. Os segundos correspondem às necessidades de alojamento de determinado tipo de 24 25 Snape, 2014: 31-33. Strouhal, 1997: 68. 11 pessoal, por exemplo os trabalhadores de minas, como em Qasr el-Sagha, ou o pessoal responsável pelo culto e manutenção dos complexos funerários reais, como em el-Lahun. Contudo, antes de entrarmos propriamente nas cidades do Faium, pensamos que devemos iniciar este périplo pelo princípio, ainda que seja mesmo pelas proximidades, quando Amenemhat I decidiu transferir a capital de Tebas para as cercanias do Faium, mais precisamente para Iti-taui, passando a dedicar mais atenção ao desenvolvimento desta região. Iti-taui e el-Licht Amenemhat, vizir de Mentuhotep IV, o derradeiro rei da XI dinastia, surge como faraó em circunstâncias desconhecidas. Oriundo de Tebas, como o seu nome não esconde (Amenemhat significa «Amon está no comando»), tinha como prenome Sehetepibré («O que satisfaz o coração de Ré»). Empenhado em manter o equilíbrio político e administrativo entre o Norte e o Sul do Egipto após a reunificação Nebhepetré Mentuhotep (Mentuhotep II), quinto rei da XI dinastia, decidiu transferir a capital administrativa e a residência real da região de Tebas, no Alto Egipto, para o Médio Egipto. Mas não escolheu Mênfis ou Heracleópolis, as anteriores capitais na região. Decidiu fundar uma cidade nova algures entre Mênfis e o Faium, na margem oeste do Nilo, que hoje estaria a cerca de 90/100 quilómetros do Cairo. A essa cidade deu o nome de Iti-Taui, o que denunciava toda a sua intenção pois este nome significa «(Amenemhat é) o soberano das Duas Terras». Embora conhecida em textos da época, até hoje não se encontraram quaisquer vestígios da cidade, continuando a desconhecer-se a sua localização exacta,26 embora se saiba que manteve a sua importância pelo menos até ao Segundo Período Intermediário, quando Avaris, no Noroeste do delta se tornou uma das capitais dos Hicsos e Tebas, no Sul, lhes fez frente. Contudo, não deverá ter sido muito longe de el-Licht, a necrópole principal de Iti-taui, onde Amenemhat I e Senuseret I construíram as suas pirâmides, e onde existem também outros túmulos contemporâneos. Admite-se que a cidade pudesse ter-se estendido pela área cultivada a leste, entre el-Licht e o rio Nilo, uma faixa de quatro a cinco quilómetros de largura, onde hoje ficam povoações como Izbat el-Licht, Bamba, Izbat Ahmed Hami el-Gharbiiat, Kafr Shehata, el-Jamalah ou el-Matniah, podendo ser esta a principal razão do seu desaparecimento, não só devido aos constantes remeximentos e regadios da terra ao longo dos anos, mas também pela ocupação em continuidade. Para já não falar das eventuais inundações! Embora as necrópoles aí existentes tenham desde túmulos rupestres do Império Antigo até túmulos da XVII dinastia, é aqui que se encontram os complexos funerários das duas pirâmides, muito delapidadas, de Amenemhat I e do seu filho Senuseret I, distanciadas cerca de 1,5 quilómetro uma da outra. O primeiro complexo funerário retoma a tradição 26 Cf. Araújo, 2011: 103-108. 12 do final do Império Antigo incluindo, além da pirâmide em ruínas do rei, um templo funerário, um recinto, um templo do vale, e várias mastabas pertencentes a membros da família real e a altos dignitários como a do vizir Iniotefoger, a do administrador geral Nakht, a do supervisor dos responsáveis pelos selos Rehurdjersn, e a da senhora da casa, Senebtisi. O segundo complexo funerário está rodeado por um duplo recinto decorado com figuras em alto relevo do nome de Hórus do rei num serekh, havendo a norte, um templo, uma pequena capela decorada, um templo do vale e nove pirâmides destinadas a membros da família real, ao que se supõe, incluindo a da rainha Neferu. A rainha Neferu aparece-nos na História de Sinuhe, como sendo «filha real de Amenemhat em Kaneferu» e «esposa real de Senuseret em Khenemsut», duas referências post mortem em relação a estes dois reis, uma vez que Kaneferu (qA-nfrw) e Khenemsut (Xnm-swt) são os nomes das suas pirâmides. Na sua proximidade foram inumados, entre outros, o vizir Mentuhotep, o sumo-sacerdote do templo de Ré-Horakhti de Heliópolis, Imhotep, o intendente Sehetepibré-ankh, o sumo-sacerdote do templo de Ptah de Mênfis, Senuseretankh e o camareiro Nakht.27 Chedet (Medinet el-Faium) No amplo e rico espaço do Faium foram sendo criados numerosos núcleos populacionais em diversas épocas e por diferentes motivos. Aquele que parece ser o mais antigo é Chedet, a capital da região desde o Império Antigo, cuja fundação a tradição, via Diodoro, atribui ao primeiro rei da história egípcia o mítico Menés, que uns dizem ser Narmer e outros Aha.28 Mais tarde, no tempo dos Gregos, Ptolomeu II Filadelfo chamou à sepat do Faium Província de Arsinoé, em homenagem à sua irmã e segunda esposa Arsinoé II, assumindo a capital regional Chedet também esse nome, embora fosse mais conhecida por Crocodilópolis, por força do referido deus local Sobeck. Contudo, Chedet tinha também a protecção de Hórus, o deus protector dos faraós, que alguns exemplares arqueológicos apresentam como Hórus de Chedet, mais exactamente «Hórus que está em Chedet».29 Hoje os árabes chamam-lhe Medinet el-Faium («Cidade do Faium»).30 Infelizmente, a sua provecta idade não resultou na sobrevivência de um conjunto significativo de vestígios, pois o rápido crescimento da cidade, sobretudo no século passado, colocou uma pressão cada vez maior nos escassos vestígios existentes. A concentração mais importante do assentamento inicial encontra-se na área da cidade moderna designada por Kiman Fares, vendo-se restos de estruturas de, pelo menos, um templo de Sobek da XII dinastia,31 reconstruído e ampliado em épocas posteriores, nomeadamente por Ramsés II: «ali foram encontradas 16 colunas papiriformes fasciculadas com capitéis fechados, 27 Baines e Málek, 1991: 133; Leclant, 2005: 1262. Sobre as duas pirâmides, as pirâmides subsidiárias da segunda e Neferu ver Canhão, 2020: 15-16. 28 Vercoutter, 1992: 208; Leclant, 2005: 809; Araújo, 2011: 20-21, 52-53 e 59-60. 29 Canhão, 2020: 28 nota 60. 30 Snape, 2014:133. 31 Vandersleyen,1995: 105. 13 Templo de Sobek da XII dinastia. Kiman Faris, Medinet el-Faium, actualmente no Crocodile Museum, Kom Ombo. Foto do autor. com cerca de 7,20 m de altura na origem, restos de um salão hipostilo; também blocos de fragmentos de paredes, sem que se possa perceber se esses restos pertenciam a edifícios diferentes». O povoado e o templo floresceram sobretudo no final do Império Médio, quando alguns nomes reais da XII dinastia e vários governantes da XIII dinastia adoptaram nomes que incluíam referências a Sobek,32 tais como Neferusobeck e, pelo menos seis Sebek-hotep.33 Pouco mais resta do passado para o visitante poder ver hoje em dia em Medinet el-Faium, o que, em contraste com muitos outros locais O Bahr Yussef e as quatro noras numa das pontes que atravessam o canal em Medinet el-Faium. Fotos do autor. 32 33 Shaw e Nicholson, 1995: 176-177. Araújo, 2011: 24-25. 14 do Egipto, certamente, é o principal contributo para que o turismo nesta região seja tão diminuto. Ao chegarmos deparamo-nos com uma cidade moderna atravessada por um largo canal de água, ainda o Bahr Yussef que, a certa altura, tem no centro um refrescante barulho de água corrente devido a quatro grandes noras sempre a funcionar. É uma cidade que mostra, também, exemplos de modernismo nos seus imóveis, desde logo o curiosíssimo Palácio da Cultura de Medinet el-Faium, uma elegante e moderna pirâmide invertida num bonito jardim de viçosa vegetação que cresce em abundância. Palácio da Cultura de Medinet el-Faium, entre o Bahr Yussef e a estação de caminho de ferro local. Foto do autor. Crocodilópolis era a única polis (cidade) do distrito de Arsinoé, sendo os outros assentamentos chamados de kome (vila). Essas vilas podiam ser grandes em tamanho e, por conseguinte, em população. Se Crocodilópolis no período de maior extensão teve, provavelmente, 288 hectares de área, a vila de Karanis, o povoamento no Faium que mais se aproximava em tamanho, terá tido uns não desprezíveis 79 hectares.34 Como vimos, um dos aspectos mais importante da história do Faium foi o grande projecto de recuperação de terras durante o Império Médio. Vestígios da actividade régia no local estão por toda a região, desde uma grande estela solta, antes chamada de obelisco, mandado erguer por Senuseret I em Abgig, a sul da capital distrital, que agora se encontra numa rotunda em Medinet el-Faium, e as bases das duas estátuas colossais de Amenemhat III que contemplavam o lago em Biahmu,35 a norte da capital distrital. À entrada do Faium temos as pirâmides reais de Senuseret II em Kahun, e respectiva cidade, e em Hauara a de Amenemhat III. Um pouco a sul de Kahun, na cidade de Medinet 34 35 Snape, 2014:168. Snape, 2014: 168-169. 15 el-Gurab, era o Palácio do Harém. Caminhando para sudoeste encontramos Kom Rucaia, na margem sul do Faium, onde foram encontrados diversos túmulos do Império Médio escavados na rocha, possivelmente da XII dinastia, sugerindo a possibilidade de se poder encontrar nas proximidades uma cidade. A norte do lago Birket Karun localizava-se a vila de mineiros em Qasr es-Sagha.36 Depois, só no Período Greco-romano o Faium foi de novo alvo de melhoramentos, graças sobretudo aos colonos gregos e aos grupos de soldados que aí se instalaram e serviram de mão-de-obra necessária aos novos empreendimentos, sendo visíveis bastantes vestígios arqueológicos de cidades fundadas neste período, como, por exemplo, Kom Aushim (Karanis), Kom el-Atl (Bachias), Dime (Soknopaiou Nesos), Umm el-Baragat (Tebtunis), Qasr Qarun (Dionísias), Batn Ihrit (Theadelphia) e Kom el-Kharaba el-Kebir (Filadélfia).37 El-Lahun e Kahun À entrada do Faium, na zona onde o Bahr Yusuf entra na depressão de el-Mala’a, encontramos do lado direito do canal, a cerca de 3 quilómetros da cidade de el-Lahun, a pirâmide com o mesmo nome mandada construir por Senuseret II, o quarto rei da XII dinastia. A pirâmide de el-Lahun foi construída sobre uma elevação rochosa, segundo o método de construção usual do Império Médio, a que é hábito designar por «construção centralizada».38 Do centro da pirâmide partiam uma série de sólidas paredes de contenção de pedra, que se cruzavam com outras mais finas formando uma série de câmaras interiores que eram cheias com tijolo ou, até, entulho. No final a estrutura era coberta com o habitual revestimento exterior. Embora fosse bastante eficaz, era, no entanto, muito menos duradouro do que o método de construção das pirâmides do Império Antigo, pois ao desaparecer a cobertura a estrutura pouco mais é do que um grande monte de terra. O complexo piramidal era muralhado e tinha uma pequena pirâmide para a rainha e uma série de mastabas para elementos da família real e dignitários. Uma grande dor de cabeça para Flinders Petrie, foi a alteração respeitante à entrada na pirâmide. A entrada, que normalmente ficava na face norte das pirâmides, neste caso não só passou para a face sul, como era feita através de dois poços exteriores à pirâmide. Nas necrópoles junto ao complexo piramidal, há mastabas e sepulturas de quase todos os períodos da história egípcia. O templo do vale ficava a cerca de um quilómetro de distância para leste, mas a sua localização em terras aráveis fez com que acabasse por ser destruído. Construída no planalto rochoso que se ergue sobre a planície aluvial a noroeste do templo do vale, e integrando-se no complexo da pirâmide construída por Senuseret II, ficava a povoação fortificada cujo nome egípcio se supõe ter sido Hetep-Senuseret («Possa Senuseret estar satisfeito/em paz»). Foi 36 Snape, 2014: 169. Snape, 2014: 169. 38 Baines e Málek, 1991: 130 e 139. 37 16 Pirâmide de tijolos de Senuseret II, el-Lahun. Foto do autor. também escavada por Petrie em 1889 e 1890, que, para a distinguir de Lahun, lhe chamou de Kahun. É normalmente considerado o assentamento mais importante do Império Médio que chegou aos nossos dias, sendo um exemplo típico do urbanismo planificado desta época. A sua localização e documentos aí encontrados dizem-nos que foi uma cidade planeada para abrigar os sacerdotes responsáveis pelo culto fúnebre de Senuseret II e um conjunto de altos dignitários que controlavam a região. O tamanho da cidade, certas características urbanas e evidências documentais descobertas no local, dizem-nos que aqui se situava um escritório do vizir, sendo aqui uma importante sede do governo regional, que até tinha uma prisão, e que foi a partir de Kahun que, pelo menos parte do trabalho de construção da pirâmide de Amenemhat III, em Hauara, foi dirigido. Contudo, a importância desta ci- Localização da cidade de Kahun em relação à pirâmide de el-Lahun. 17 dade vai muito para além dos vestígios arquitectónicos, pois aqui foi descoberto um conjunto muito significativo de papiros do Império Médio, que incluíam desde documentos administrativos dos templos locais até textos médicos e muitas cartas pessoais. Descobriram-se também muitos objectos da vida quotidiana como «ferramentas, itens de religião pessoal, brinquedos infantis e até mesmo uma ratoeira».39 Na XIII dinastia, quando o poder real deu provas de grande enfraquecimento e falta de recursos para manter o culto funerário dos reis, foi abandonada. Enquanto existiu, não deixou de dar o seu contribuiu para o desenvolvimento agrícola da região. Hoje localiza-se em plena área de separação entre o deserto e a terra cultivada, tendo-se perdido uma boa parte do sudeste da cidade. A Mapa de Kahun segundo Flinders Petrie, destacando-se as plantas dos dois tipos de habitação: blocos de casas dos trabalhadores (ao centro) com quatro tipos possíveis das casas dos trabalhadores (à esquerda) e grandes mansões (à direita). sua muralha externa era aproximadamente de 384 por 335 metros,40 o que dava uma área de cerca de 12,8 hectares, tendo albergado até 3.500 pessoas, segundo alguns, e 5.000 ou mais, segundo outros.41 Há uma clara segregação espacial, pois uma muralha interna separa dois bairros destintos um do outro. Em ambos os bairros as ruas estendem-se num plano ortogonal, tendo entradas distintas e não se comunicando. Aparentemente, a parte maior do assentamento, a do lado este, terá sido a primeira a ser construída. Tinha uma entrada a oriente cuja rua se estendia até ao lado contrário junto ao que parece ter sido um templo dedicado ao deus Soped, virando em ângulo recto para sul onde havia outra 39 Snape, 2014: 65. Snape, 2014: 64. 41 Somaglino, 2022: 84; Snape, 2014: 64. 40 18 porta. Mais ou menos a meio destas ruas, estendiam-se outras ruas perpendicularmente, mas o desaparecimento da parte sul da localidade e do muro externo não permite vê-las na íntegra. Naquilo a que podemos chamar de «bairro oriental», as residências maiores estendiam-se ao longo da rua este-oeste, ocupando uma superfície de cerca de 2.700 m2 cada (45 por 60 metros).42 Seis dessas estruturas residenciais ficam do lado norte da principal rua leste-oeste da cidade, enquanto três ficam no lado sul da mesma rua. Estas grandes residências tinham plantas muito idênticas umas às outras e às vilae romanas, incluindo espaços de recepção, espaços reservados à família, espaços para serviços e armazenamento à volta de um pátio. Eram autênticas unidades económicas e administrativas, alojando diversas actividades artesanais, como a fiação e a tecelagem, além de terem uma capacidade para armazenar alimentos muito superior às necessidades dos residentes. Com capacidade para mais de 300 metros cúbicos de grão cada, só estas nove casas teriam uma capacidade total para guardar 2.700 metros cúbicos de grão, na época da colheita. Esta quantidade de grão permite calcular que fosse suficiente para alimentar entre 5.000 e 9.000 pessoas, um número próximo, ou superior, à maioria das estimativas da população total de Kahun.43 Portanto, não havia um armazenamento centralizado, mas um armazenamento distribuído pelos líderes comunitários nas suas residências que, assim, controlavam directamente os bens comunais. Por este exemplo, é de admitir que pudesse acontecer o mesmo com outro tipo de produções, como, por exemplo, a tecelagem, cuja produção e distribuição estivessem centralizadas. Em posição sobreelevada no ângulo noroeste do bairro ocidental, a casa grande que aí se situava era o palácio do governador da cidade, com uma entrada que se afasta um pouco da rua e se faz por detrás de uma colunata virada a norte, no lado sul do grande pátio, sugerindo privacidade. A arrumação desta habitação permite que as oficinas e os escritórios possam ser visitados sem entrar na casa. O conjunto de casas a sul do templo eram construções destinadas à administração da cidade, sendo aí que se localizava o gabinete do vizir. Há também grupos de casas mais modestas, organizadas em blocos a sul das casas grandes, variando o seu tamanho entre 40 e 50 m2 as mais pequenas, e 135 m2 as maiores. O «bairro ocidental», a parte oeste da cidade, terá sido construída pouco tempo depois do «bairro oriental» e foi feita para alojar os sacerdotes responsáveis pelo culto funerário de Senuseret II, pelo que alguns também lhe chamam «cidade pirâmide».44 É uma área estreita com cerca de 3,5 hectares,45 encostada ao muro oeste do «bairro oriental», que corresponde ao seu comprimento (335 x 105 metros). Tinha apenas um acesso pelo lado sul, de onde partia uma rua até ao muro norte. Desse eixo sul-norte partiam várias ruas secundárias perpendiculares, que davam acesso a pequenas casas 42 Somaglino, 2022: 84. Snape, 2014: 68. 44 Somaglino, 2022: 85. 45 Somaglino, 2022: 85. 43 19 construídas nas costas umas das outras. Petrie escavou mais de 200.46 Foram agrupadas segundo as dimensões (168, 135, 100 e 50 m2), obedecendo originalmente a uma mesma planta que, ao longo do tempo e graças aos trabalhos dos seus ocupantes foi evoluindo,47 sendo visíveis variações consideráveis dentro das casas, tendo sido adicionadas ou demolidas paredes internas para as adaptar às circunstâncias de quem vivia nelas. Em alguns casos, até mesmo as casas vizinhas foram adicionadas para formar habitações maiores. A planta original compreendia um pequeno número de quartos, a maioria estreitos e semelhantes a corredores, que eram cobertos por abóbadas de berço. Foram estas alterações que permitiram encontrar diversas variantes nas dimensões destas casas. As mais pequenas de todas têm apenas 8,5 por 5,25 metros, com três quartos, todos abrindo para um pequeno hall de entrada. Vêm depois as que têm uma planta quase quadrada, com cerca de 8 por 7,5 metros, comportando duas salas principais, mais duas divisões menores e o espaço de ligação entre elas. As versões maiores tinham 7 a 8 divisões que se abriam para uma ou várias salas centrais, tendo arranjos internos mais complicados e, talvez, mais privados. A abundante documentação encontrada em Kahun possibilita explicar a estrutura e o funcionamento de algumas destas casas. Através dos papiros de registo de três recenseamentos sucessivos de uma casa na XIII dinastia, podemos seguir a evolução familiar do soldado Hori. Num primeiro período de ocupação, o primeiro documento notarial diz-nos que o soldado Hori, o chefe de família, vivia naquela casa com a mulher, Chepset, e o filho Seneferu. Mais tarde, um segundo documento notarial dá-nos conta de um segundo período de ocupação, dizendo-nos que quando lhe morreu o pai, o soldado Hori acolheu na casa onde vivia com a mulher e o filho, a mãe Harekhni e as cinco irmãs Ísis, Mekten, Qat-senut, Sat-seneferu e Rudet. Finalmente, o terceiro documento notarial insere-nos no terceiro período de ocupação dando-nos conta de que com a morte de Hori, o filho Seneferu tornou-se o chefe de família e passou a viver com a mãe, a avó e três das suas tias. Infelizmente desconhece-se o que aconteceu às outras duas tias. Tanto podem ter morrido como ter constituído as suas próprias famílias. Através dos documentos oficiais podemos seguir a família restrita e através dos documentos privados seguir a família alargada, verificando que vários membros da mesma família podiam ocupar diversas casas vizinhas, criando uma noção alargada de lar, ficando dependentes de um pai simbólico, que era o chefe dessa família, incluindo servidores, livres ou não.48 Deixemos aqui também, algumas palavras relativas a Hauara que não é uma cidade, mas apenas um sítio arqueológico do antigo Egipto localizado na entrada do Faium, a cerca de 10 quilómetros de el-Lahun e, eventualmente, com ligações entre si.49 Por mais que não seja, pelo simples facto de pelo menos parte do trabalho de construção da pirâmide de adobes de Amenemhat III, ter sido dirigido a 46 Snape, 2014: 66. Somaglino, 2022: 85 e 87. 48 Somaglino, 2022: 87. 49 Cf. Canhão, 2020: 36. 47 20 Pirâmide de tijolos de Amenemhat III, em Hauara. Foto do autor. partir de el-Lahum e, provavelmente, com mão-de-obra proveniente daí. Esta pirâmide encontra-se em muito mau estado, tendo o seu interior completamente inundado. Foi escavada por Lepsius em 1843 e, depois, por Flinders Petrie em 1888-1889, que aí encontrou vários papiros dos séculos I e II da Era cristã. Também esta pirâmide tem a entrada na face sul. No seu interior estavam não um, mas dois sarcófagos «de quartzito, sem inscrições, o maior, ao centro, para o rei e o menor, claramente uma excrescência, para a sua filha Neferuptah, e duas caixas para os vasos de vísceras.» 50 O rei nunca Canal ao lado da pirâmide de Amenemhat III, em Hauara, cujo nível freático provoca sérios danos à pirâmide, atulhada logo desde a entrada. Fotos do autor. 50 Canhão, 2020: 34. Sobre esta pirâmide e sobre as filhas de Amenemhat III ver a segunda parte deste artigo, intitulado «Neferu III e Neferusobek: traços das suas vidas e da sua época». 21 aqui repousou, mas a sua filha Neferuptah passou aqui algum tempo até o seu túmulo estar pronto. Este foi descoberto intacto a cerca de 2 quilómetros de distância. Amenemhat III foi o último grande rei da XII dinastia, que durante 45 anos continuou os ideais de seu pai Senuseret III (c. 1860-1825 BC) e com ele o Império Médio atingiu o seu apogeu económico. Entre outras coisas, fez com que a exploração agrícola do Faium aumentasse. Como já escrevemos, «no lado sul da pirâmide de Amenemhat III existe um templo funerário tão grande e complexo que mereceu dos dois ilustres visitantes helenos Heródoto e Estrabão, a designação de Labirinto. É um edifício com 305 m x 244 m, com uma grande quantidade de corredores e salas, sendo algumas, pequenos santuários dedicados a Sobek.»51 Percebe-se assim que o deus Sobek, cujos principais centros de adoração eram o Faium e Kom Ombo, fosse uma divindade preponderante entre a família real nos finais da XII dinastia. A família real deslocava-se frequentemente ao Faium, e até incluiu o nome da divindade no nome de nascimento de uma das filhas do rei. Mais tarde, ao subir ao trono, o seu prenome passou a incluí-lo também: (kA sbk-ra nfrw sbk), Kasobekré Neferusobek, «O ka de Sobek-Ré» «A beleza de Sobek».52 Oriunda de Tebas e radicando-se na região a sul de Mênfis, à entrada do Faium, em Iti-taui, a deslocação que a XII dinastia fez para norte parece ser a responsável pela alteração teofórica dos nomes dos governantes. Os nomes dos faraós da XII dinastia invocam Amon e Useret, divindades da região tebana, e as filhas de Amemnemhat III aqui destacadas invocam Ptah e Sobek, divindades da região de Mênfis e do Faium. Aliás, já Senuseret I tinha tido duas filhas, irmãs de Amenemhat II, com os mesmos nomes. Como antes afirmámos, se a cidade fundada por Amenemhat I ainda está por localizar, os cemitérios reais desta dinastia à entrada do Faium — Licht, Dahchur, Lahun, Hauara — dizem-nos que, certamente, seria nesta região.53 Há ainda no local, cemitérios de túmulos cavados na rocha e sepulturas diversas do Império Médio, da Época Baixa e do Período Greco-romano. Este último, uma necrópole a norte da pirâmide, foi onde Flinders Petrie descobriu 146 retractos pintados do período romano, que constituem o núcleo conhecido dos retractos do Faium. No que respeita a pirâmides do Faium, é de assinalar ainda a pequena pirâmide de degraus de Seila, a mais setentrional de sete pirâmides de degraus muito pequenas (do tamanho das pirâmides das rainhas) no vale do Nilo, situada a sul de Filadélfia e a oeste de Meidum, no topo da escarpa leste do Faium, a 124 metros de altura. Baines e Málek dizem ser da III dinastia54 e Tallet diz que é uma «pequena pirâmide fronteiriça, construída por Seneferu (…) [que] poderia sinalizar um interesse no 51 Cf. Canhão, 2013: 32-33. Canhão, 2020: 36. 53 Dodson & Hilson, 2004: 90-99; Araújo, 2011: 108. 54 Baines e Málek, 1991: 131. 52 22 desenvolvimento agrícola desta região desde a IV dinastia.»55 Sem edifícios subsidiários e sem câmaras funerárias, todas parecendo ser da III ou IV dinastia. A sua função permanece desconhecida. Pirâmide de Seila na colina de Gebel el-Rus. Alinhada de norte a sul, os restos de Seila têm hoje apenas 7 metros de altura e partes deles estão enterrados em escombros. Descobriram-se no local fragmentos de duas estelas de calcário e uma mesa de oferendas, que permitiram identificar a estrutura como pertencente a Seneferu, da IV dinastia. Na base da escarpa abaixo da pirâmide há alguns túmulos escavados na rocha dos períodos romano e copta onde se encontraram grandes quantidades de papiros. Kom Medinet Ghurab A cerca de 3 quilómetros a sudoeste de el-Lahun, no lado sul da entrada para o Faium, encontra-se na orla do deserto o que resta de dois templos, de habitações e de necrópoles. É uma povoação cujos restos arqueológicos nos dizem que prosperou durante a segunda metade da XVIII dinastia e a XIX dinastia. O templo maior foi mandado construir por Tutmés III e foram encontrados vários objectos que representam ou se relacionam com Amen-hotep III e a rainha Tié. Um dos edifícios que integra a cidade é muitas vezes descrito como o palácio da rainha,56 normalmente designado por 55 56 Tallet, 2005: 99. Cf. Baines e Málek, 1991: 130. 23 harém. Foi fundada no reinado de Tutmés III e o seu eventual abandono foi, provavelmente, durante o reinado de Ramsés V.57 O harém real, o ipat nesu (ipAt nsw), era uma instituição muito antiga, pois desde os primórdios do Império Antigo que a instituição designada por harém real existia «paralela à Administração real, mas independente dela».58 Uma inscrição do reinado do rei Semerkhet, da primeira dinastia, refere-se a uma «oficina de tecelagem do Ipet» e, de facto, parece que a produção de linho de alta qualidade terá sido a actividade mais importante no harém em Medinet el-Gurab.59 Era onde residia a rainha e se educavam as crianças reais. Residiam também aí as esposas reais secundárias, egípcias ou estrangeiras, as favoritas do rei designadas por khekerut-nesu (Xkrwt-nsw), isto é, os «ornamentos do rei» ou «concubinas», e as neferut (nfrwt), as «beldades» do palácio real que tinham por função cantar, dançar e distrair sua majestade. O harém egípcio era uma instituição administrativa ligada às mulheres reais e ao palácio real, sem qualquer carga erótica semelhante ao harém otomano. Para a educação das crianças reais havia aí a «casa das crianças reais» onde amas, escolhidas entre as damas da corte, e perceptores, muitas vezes generais em fim de carreira, supervisionados pelas mães reais, as tinham a seu cargo. Havia mesmo uma escola aberta aos filhos dos notáveis e desde o Império Médio que esta escola estava também aberta aos filhos dos chefes estrangeiros (núbios, asiáticos e semitas, embora só os primeiros estejam verdadeiramente confirmados), que aqui eram educados à egípcia, ganhando eles em conhecimentos e os Egípcios em aliados. Esta instituição chamava-se kap (kAp) e aqueles que a integravam eram as crianças do kap, kheredet en kap (Xrdt n kAp), «dignidade que as acompanhava por toda a vida», que indicava uma proximidade com o rei desde tenra idade. Como já antes escrevemos, «o harém real era uma instituição muito bem organizada, dominada pela primeira esposa do rei, mais tarde designada por “esposa principal do rei” ou “grande esposa real”, assistida por uma superiora do harém. Era dirigido por um chefe administrativo, assistido por um adjunto, que liderava um grande número de escribas do harém, inspectores e funcionários subalternos com títulos como “escriba da porta do harém” e “guardião das portas”», para gerir, coordenar e produzir os seus próprios activos económicos, através de actividades geradoras de rendas. «Havia também numerosos servos domésticos, artesãos e agricultores que não deixavam que faltasse nada no harém e ainda eram uma boa fonte de rendimento. Esclareça-se que entre estes não havia nenhum eunuco, figura que parece nunca ter existido no Egipto faraónico. (…) As esposas também se organizavam hieraticamente, o que justifica, por exemplo, que venha a surgir por vezes o epíteto de “segunda grande esposa real”».60 Os mais destacados elementos deste microcosmos tinham os seus 57 Snape, 2014: 48. Desroches-Noblecourt, 2000: 65. 59 Snape, 2014: 48. 60 Canhão, 2020: 19-20. 58 24 aposentos privados, fossem as esposas reais e seus filhos menores, fossem as favoritas, que o rei poderia procurar mas com privacidade e sem a promiscuidade associada aos haréns otomanos.61 No Egipto antigo havia vários haréns reais: um em Tebas, outro em Mênfis e um terceiro no Faium, em Medinet el-Gurab. Havia, ainda, o harém do Palácio, o «harém de acompanhamento», que seguia o faraó nas suas campanhas.62 Medinet el-Gurab era o mais famoso e importante dos haréns, constituindo, provavelmente, uma pequena cidade. Isso justificava-se pela importância que o Faium assumiu sobretudo no Império Médio, que, mesmo sem realização de grandes obras de melhoramento, se estendeu para o Império Novo. A localização deste palácio do harém longe dos centros do poder, a criação de uma cidade de tamanho razoável, com suas próprias instalações de produção e blocos residenciais substanciais, deve estar ligada a outro assunto conhecido acerca dos haréns reais que são as conspirações. Há notícias de conspirações nascidas e desenvolvidas nos haréns reais desde o Império Antigo, como explicámos e exemplificámos noutro artigo, de Uni a Ramsés III.63 Dissemos então, que «num ambiente que albergava numerosas esposas, principais e secundárias, em que algumas podiam ser mais beneficiadas pelo faraó do que outras, havia sempre aquelas que se sentiam injustiçadas e ultrapassadas, surgindo rivalidades e invejas. Em casos extremos, podia haver mesmo lugar a conspirações que punham em risco vidas. Desenvolvendo grandes teias com familiares, amigos e funcionários fiéis, surgiam lutas de influências entre elas, em que as mais graves atentavam contra a vida do próprio soberano, na tentativa de beneficiarem os seus filhos, em detrimento dos filhos de outras».64 Qasr el-Sagha Qasr el-Sagha localizava-se inicialmente nas margens do lago Birket Karun, encontrando-se hoje a cerca de 8 quilómetros da sua margem norte, em pleno deserto, a cerca de 25 quilómetros para sudoeste da Estrada Circular Regional, no pedaço que liga a estrada que vem do Cairo para o Faium, designada de Estrada do Deserto, à Estrada el-Wahat, perto do mosteiro de Deir Abu Leff e a sul da Floresta Petrificada, onde se podem ver fósseis espalhados pelo deserto da floresta que aí crescia à cerca de 35 milhões de anos. Em Qasr el-Sagha encontramos vestígios arqueológicos de um templo inacabado do Império Médio. O templo de forma rectangular é construído com grandes blocos de arenito local de tamanhos desiguais, encaixando alguns obliquamente. As suas pedras não foram trabalhadas e não há quaisquer inscrições nas paredes. A entrada é no centro da fachada sul, onde uma porta é encimada por um grande lintel. Ao entrar somos introduzidos num espaço rectangular em frente ao qual se abrem sete santuários cobertos na 61 Cf. Canhão, 2020: 18-22. Com Akhenatem, houve ainda em Akhetatem o harém do Norte e o harém do Sul, Desroches-Noblecourt, 2000: 66. 63 Cf. Canhão, 2020: 18-22. 64 Canhão, 2020: 21. 62 25 parede norte, provavelmente, cada um dedicado «a um deus concreto».65 A leste, uma entrada dá acesso a uma câmara da largura do templo, enquanto a oeste a passagem existente conduz a uma sala Templo de Qasr el-Sagha. Planta de Flinders Petrie. rectangular pequena que comunica através de uma passagem baixa com outra sala quase quadrangular. Do lado leste da fachada sul há uma passagem muito estreita, que dá acesso em ângulo recto a um compartimento da mesma largura. À volta do templo encontram-se túmulos do Império Médio escavados na rocha e em poços. A oeste do templo encontra-se o que resta de um assentamento que, provavelmente, foi habitado do Império Médio até ao final do Segundo Período Intermediário. Muito diferente de um acampamento de ocupação sazonal de curto prazo, este é um local projectado para abrigar em permanência trabalhadores de uma pedreira de calcário, xisto e marga.66 Uma vez que falamos de uma pedreira, o povoado deverá ter sido construído pelo próprio poder do Império Médio para essa finalidade, neste local distante e inóspito, criando mais um urbanismo de planta regular e ortogonal. A planta consistia num rectângulo de 114 metros de largura por 80 metros de profundidade, muralhada a toda a volta, orientada a largura no sentido este-oeste e o comprimento no sentido norte-sul. Havia uma rua central que dividia o assentamento ao meio correndo de norte para sul, com uma entrada em cada extremidade. Embora tenha havido uma forte erosão do lado leste, parece possível que a cidade fosse uma 65 66 Ikram, 2022: 216. Os dois últimos derivam da argila: o xisto, por força da pressão e temperatura sobre a argila tem a seguinte sequência de formação: argila - folhelho (xisto argiloso) - ardósia - xisto; a marga é um tipo de calcário que contém 35 a 60% de argila, bom para a cerâmica. 26 imagem espelhada tendo por charneira a rua principal. Isto permitiu reconstruir a divisão interna da cidade em quatro quarteirões no sentido norte-sul, sendo que os dois blocos centrais tinham 10 casas alinhadas costas com costas em grupos de cinco, e os outros dois blocos tinham apenas uma fileira de cinco casas cada. Um conjunto, portanto, de 30 casas. As entradas de todas as casas, estavam viradas para as entradas das outras casas do outro lado da rua. Para além das três ruas norte-sul, contornando todo o muro havia outras ruas de acesso às casas. Todas as casas aparentam ter o mesmo tamanho e a mesma forma. Em cada uma a entrada dava acesso a um pátio de 13 metros de largura por 5,25 metros de profundidade, que deveria ser utilizado para as actividades comunitárias e domésticas, como indica a presença de fornos em alguns deles. Do lado oposto à porta de entrada, havia cinco portas que davam acesso a cinco salas longas e estreitas de aproximadamente 8 por 2 metros cada, que, muito provavelmente, seriam os quartos individuais. Dada a natureza do local, a configuração das habitações e as ferramentas encontradas, não parecem ser residências familiares. Embora nada nos garanta isso com exactidão, as evidências sugerem que cada uma destas casas era o lar de cinco indivíduos, que partilhavam uma série de actividades comunais, como cozinhar e comer juntos, por exemplo. E sendo habitações todas iguais, também é provável que o trabalho em Qasr el-Sagha estivesse organizado em equipes de cinco homens.67 Plano reconstruído da cidade dos trabalhadores da pedreira de Qasr el-Sagha, com um plano em destaque de uma das unidades individualizada. Medinet Madi (Narmouthis) Medinet Madi, que em árabe significa, a «Cidade do passado», é o nome moderno da cidade a que os Gregos chamaram Narmouthis, a «Cidade de Renenutet», cujo nome completo seria «a cidade de (Ísis)-Renenutet-Hermutis»,68 e os seus fundadores, os Egípcios, designavam por Dja. Era uma cidade 67 68 Snape, 2014: 70-71 Bresciani e Giammarusti, 2014: 20. 27 não muralhada, localizada na parte sudoeste de Faium, que foi iniciada por Amenemhet III e concluída por Amenemhat IV, na XII dinastia (cerca de 1800 a. C.). Pouco se sabe sobre a cidade deste período, apenas que o pequeno templo construído para Sobek e Renenutet no Império Médio ainda funcionava no Império Novo, pois o rei Merenptah (1213-1203 a. C.), o quarto rei da XIX dinastia colocou uma estátua sua no templo. Depois do Império Novo, o local foi abandonado, mas no tempo dos Ptolemeus as pessoas voltaram a estabelecerem-se na cidade novamente, altura em que o pequeno templo referido «foi absorvido por estruturas ptolemaicas muito maiores».69 Parte das ruínas de Medinet Madi. Foto de Von Einsamer Schütze - Eigenes Werk, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7511323. Bem maior do que os dois exemplos antes apresentados, Kahun e Qasr el-Sagha, também a cidade ptolemaica de Medinet Madi, com cerca de 1.000 metros de comprimento por 600 metros de largura, foi projectada segundo um padrão ortogonal, onde o cruzamento das ruas em ângulos rectos mostra um mapa em forma de grelha. É bem provável que tivessem seguido o modelo que aí encontraram e que vinha do Império Médio, que acrescentaram e actualizaram, tal como fizeram ao pequeno templo da mesma época.70 Os templos principais localizam-se na parte ocidental da cidade, havendo um longo percurso processional no sentido norte sul. Já no Período Romano, o imperador Diocleciano mandou erguer uma for- 69 Snape, 2014: 169. O Império Médio é o período entre cerca de 2100 e 1765 a. C. sem a XIII dinastia, ou entre 2100 e 1650 a. C. incluindo a XIII dinastia, portanto séculos XX a XVIII a. C. Os Gregos tinham relações comerciais com os Egípcios e algumas cidades gregas até estabeleceram portos comerciais no delta do Nilo, como Mileto em Náucratis no século VII a. C., no tempo de Psamético I (664-610 a. C.), primeiro rei da XXVI dinastia. Hipódamo de Mileto (c. 498 a. C. - 408 a. C.), 70 28 Planta de Medinet Madi, com destaque da planta e localização da fortificação romana. tificação a nordeste da cidade. É uma pequena fortaleza quadrada de 50 por 50 metros, o Castrum Narmutheos, com uma torre em cada canto e a entrada principal no lado sul, que abrigava uma coorte romana, a IV Coorte Numidarum.71 No Período Bizantino a população mudou-se para a parte sul da cidade, construindo várias igrejas de que ainda hoje há vestígios. Depois da conquista muçulmana do Egipto (639 d. C.) Medinet Madi continuou ocupada, sendo abandonada só depois do século IX. Escavações recentes, do início de 2006, puseram a descoberto edifícios administrativos, tribunais, celeiros e residências, levando a pensar que seria mais uma cidade agrícola da região do Faium. Tanto mais que a sua divindade era a deusa-cobra das colheitas Renenutet!72 considerado o «pai» do planeamento urbano em quadrículas, com o qual reconstruiu a cidade de Mileto em 479 a. C. e a de Pirene em 451 a. C., assim como outras cidades, viu o seu sistema depois utilizado pelo arquitecto de Alexandre, o Grande, Dinócrates, na construção de Alexandria (331 a. C.). Era filho de nobres e um extraordinário e rico comerciante, que já tinha visitado o Egipto e tomado conhecimento com a sua astronomia e com a sua geometria (Grimberg, 1965: 152). É por isso bem provável, que também tivesse tido conhecimento das cidades planificadas que existiam no Egipto já há bastante tempo, em particular as do Faium, aplicando e desenvolvendo posteriormente esse conhecimento naquilo que veio a ser conhecido como o Sistema Hipodâmico, caracterizado por princípios de ordem e regularidade, com o solo urbano dividido por classes, numa planificação baseada em ruas largas que se cruzavam em ângulos rectos. 71 Bresciani e Giammarusti, 2014: 21. 72 A «senhora do grão», a «dama das colheitas», era venerada pelos camponeses, porque acreditavam que era ela que zelava pelo crescimento da vegetação afastando as más influências. No calendário egípcio, Farmuti, o oitavo mês do calendário e quarto mês de Peret, a estação das sementeiras, era-lhe dedicado sendo «o mês de Renenutet», Sales, 1999: 327-329. 29 Os templos A, B e C de Medinet Madi, destacando-se o templo original do Império Médio. Na cidade de Medinet Madi existiam três templos, que chegaram até nós em bom estado de conservação, provavelmente devido ao seu relativo isolamento: o templo A destinado à deusa Renenutet e ao deus Sobeck, que é do Império Médio e foi mandado construir por Amenemhat III, mas finalizado na sua decoração por Amenemhat IV; contíguo ao Templo A, o Templo B é do período ptolemaico, dedicado aos mesmos deuses; recentemente foi descoberto um terceiro templo, o Templo C, também do período ptolemaico, que tem um duplo naos para o culto do deus Sobek.73 Vejamos mais em pormenor cada um destes templos. O Templo A, que se orienta de sul para norte e que as inscrições dizem ser o «Templo de Renenutet viva de Dja», foi construído em arenito escuro e consiste num pórtico/vestíbulo com duas colunas papiriformes, uma com o nome gravado de Amenemhat III e a outra com o nome de Amenemhat IV, ambos nomeando Renenutet, por detrás das quais há uma entrada para um santuário com três capelas, tendo a capela central uma estátua de grandes dimensões de Renenutet, e as duas capelas laterais tendo uma Amenemhat III e a outra Amenemhat IV. Os relevos que encontramos no vestíbulo 73 Bresciani, 2005: 1371. 30 não estão em muito bom estado de conservação, mas incluem uma cena de fundação do templo, na parede este, onde é possível ver a deusa Sechat com um rei. Entrando no santuário, na parece sul temos um relevo que mostra Amenemhat III frente a Renenutet na sua forma antropomórfica, uma mulher em pé com uma cabeça de cobra. Ambos são apresentados em escala muito maior do que Neferuptah, a filha do rei, presente entre os dois.74 Na parede norte estão as três capelas, a que fica a oeste era dedicada a Renenutet, que aparece como divindade principal na parte de trás da capela, exactamente na parede norte. Nas paredes laterais da capela, Sobek aparece na parede oeste e Renenutet na parede este. A capela central foi dedicada simultaneamente a Renenutet e a Sobek, aparecendo a primeira na parede oeste e o segundo na parede leste frente a Amenemhat III. Na parede norte, atrás de Amenemhat III, aparece Renenutet de frente para o rei. A capela a este foi novamente dedicada a Renenutet. A extensão ptolemaica incluía o caminho processional que levava ao pórtico de duas colunas mais antigo. Os acréscimos ptolemaicos do templo incluíam um longo caminho processional pavimentado no sentido sul-norte, ladeado por leões e esfinges num estilo misto egípcio e grego, que passa por um quiosque de oito colunas e conduz ao pórtico de duas colunas do templo mais antigo.75 O Templo B, foi construído no tempo dos Ptolemeus, na parte de trás do Templo A, daí ser também conhecido por Templo do Norte. Tem uma planta semelhante à do Templo A e a entrada virada a norte, tendo sido dedicado à deusa Ísis-Termutis, o nome que os Gregos atribuíam à deusa Renenutet. Depois de uma grande praça aberta, onde se encontra a «capela de Ísis», entra-se num santuário com 74 75 Canhão, 2020: 35 nota 105. Snape, 2014: 169; Bresciani e Giammarusti, 2014: 20. 31 três capelas na parede sul, tendo a capela central um nicho ao fundo. A decoração ficou por acabar, como se pode ver pela figura sentada do lado esquerdo da fachada que nunca foi terminada, embora haja outras figuras esculpidas em relevo, mas a maioria está mal conservada. E Bresciani e Giammarusti dão-nos uma excelente, curiosa e preciosa informação: «No seu amado Faium, na época ptolemaica e romana, Amenemhat III foi adorado como um deus com o nome de Porramanres, Pramarres ou Premarres, transcrições fonéticas do nome egípcio per-aa Nimaatré, ou seja, faraó Nimaatré; o papel fundamental da Narmoutis no desenvolvimento e fortalecimento de seu culto é explicitamente confirmado pelo IV hino de Isidoro, o último dos quatro hinos compostos no século I a. C. pelo egípcio helenizado Isidoro; os quatro hinos foram gravadas nos encravamentos da entrada do vestíbulo da Heracleodoros, no templo ptolemaico de Medinet Madi».76 Numa parede em Medinet Madi, são visíveis os três principais tipos de materiais de construção usados no antigo Egipto ─ adobes, pedra e madeira ─ representados em proporção segundo a sua escassez comparativa. © Steven Snape. Foto em S. Snape, 2014: 31. O Templo C fica a leste do templo de Renenutet, com a entrada principal voltada para este templo. É, também, do Período Ptolemaico, mas só foi descoberto e escavado na última década do século XX (de 1995 a 1999), com um elevado grau de preservação, pois há paredes que ainda têm cerca de quatro metros. Este templo foi dedicado ao culto de Sobek, mais precisamente ao culto de duas múmias suas. O templo tem um pequeno pátio pelo qual se acede a uma capela com duas celas. Em cada uma havia a múmia de um crocodilo. Em frente ao templo há um grande pátio que, de ambos os lados, tinha edifícios, provavelmente para uso económico. Do lado norte do templo há uma câmara abobadada, com uma parede de pedra a dividir o interior em duas partes e que tinha anexada uma 76 Bresciani e Giammarusti, 2014: 20. 32 bacia onde foram encontrados mais de trinta ovos de crocodilo. É provável que esta sala fosse um berçário para crocodilos. Este complexo foi usado até o século IV d. C., sendo posteriormente abandonado.77 A sudeste de Medninet Madi, perto da cidade ptolemaica de Umm el-Breigat, a Tebtunis grega, foram descobertos diversos túmulos cavados na rocha, provavelmente da XII dinastia, num local chamado de Kom Rucaia. Karanis (Kom Aushim) Templo do Período Greco-romano consagrado aos deuses locais Petesukhos e Pneferos. Localizada a nordeste do Faium à beira do deserto, chega-se aí vindo do Cairo pela Estrada do Deserto para o Faium. Karanis, hoje conhecida pelo nome de Kom Aushim, tinha um tamanho considerável: o seu espaço arqueológico cobre uma área de 1.050 por 750 metros e calcula-se que a sua população seria de cerca de 4.000 pessoas no século II. Foi abandonada antes do final do Período Romano e não foi reocupada posteriormente. É o melhor exemplo que sobreviveu de um povoamento do Egipto greco-romano; as suas casas de adobes de dois ou três andares, agrupadas em quarteirões complexos, dão uma boa ideia de como deve ter sido a vida numa cidade «real» deste período. 77 Bresciani e Giammarusti, 2014: 21. 33 Os dois vestígios arquitectónicos mais marcantes são os seus dois grandes templos: o templo do sul, uma construção de pedra com 15 metros de largura por 22 metros de comprimento, estava implementado num recinto sagrado de 75 por 60 metros. O deus aqui venerado, como em vários locais do Faium do Período Greco-romano, era Sukhos, nome classicizado de Sobek, adorado aqui na forma da divindade dual Pneferos e Petesukhos. Como era típico na Época Baixa e no Período Greco-romano, a adoração de deuses com formas de animais desenvolveu o surgimento de necrópoles de animais sagrados, como foi o caso aqui de uma necrópole de crocodilos mumificados de dimensão bastante considerável, tendo em conta o tamanho do povoado onde estava implementada. As evidências populacionais do Faium sugerem um declínio geral da população durante o século II. Na década de 160-170 e indo até 180, pelo menos, o Egipto sofreu uma praga muito grave, que teve o efeito de despovoar grande parte do país. Onde existem números, ou podem ser estimados, o declínio foi dramático e duradouro. Nos 50 anos entre 150-200, a população de Karanis caiu 40% e parece não se ter recuperado, já que no século IV ela representava apenas 10% do nível do século II. No resto do Faium, outras grandes cidades sofreram um declínio catastrófico da população e algumas foram completamente abandonadas.78 Presumimos que a referida peste possa ter sido a peste antonina iniciada em 165, provavelmente na China, e tendo atingido Roma em 166, afectando todo o mundo romano, devido à extraordinária mobilidade desse tempo. De acordo com Cláudio Galeno, esta epidemia tinha como sintomas febre, erupções cutâneas e diarreia. A praga matava mais de 2000 pessoas por dia na cidade de Roma, em particular o exército romano que enfraqueceu muito, com milhares de soldados mortos, especialmente no leste, pois, segundo Eutrópio a praga alastrou-se por todo o Império, e, como sabemos, as torres e fortificações romanas espalhavam-se por todo o Egipto. Estudos modernos estimam o total de mortos desta pandemia em mais de 5 milhões de pessoas.79 Filadélfia (Kom el-Kharaba el-Kebir) Kom el-Kharaba el-Kebir, a «Grande Colina das Ruínas», situava-se no extremo leste das terras cultivadas de Faium, a cerca de 40 km a nordeste de Medinet el-Faium e é o local da antiga cidade militar greco-romana de Filadélfia. O seu fundador, Ptolomeu II Filadelfos, dedicou-a à sua irmã Arsinoé. Os arqueólogos conhecem-na pela «cidade modelo» criada pelo ministro do faraó, Apolónio, segundo o modelo helenístico de ruas regulares. Afinal, um modelo estabelecido pelos Egípcios no Faium pelo menos desde o Império Médio! A exploração arqueológica da Filadélfia revelou um assentamento de, provavelmente, cerca de 1.000 metros de comprimento por 500 metros de largura, numa disposição em grade muito regular de ruas perpendiculares umas às outras, e insulae (blocos habitacionais) de 100 metros de comprimento 78 79 Snape, 2014: 134-135; https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/kom-ushim/ (consultado em 21-04-2023). https://pt.wikipedia.org/wiki/Peste_antonina (consultado em 21-04-2023) 34 por 50 metros de largura, cada um contendo até 20 casas de adobes, com uma área de 12 por 12 metros. É sobretudo a presença das insulae, construções tipicamente romanas, que torna esta urbanização tão greco-romana, pois há outros povoamentos no Faium que no seu planeamento têm características mais de acordo com a tradição egípcia, como, por exemplo, a rua principal não ser uma simples avenida, mas uma rota processional dirigida a um templo dominante.80 Descoberta nos finais do século XVIII e escavada no início de 1900, agora está coberta pelo deserto pouco havendo para ver em Filadélfia, embora ainda possam ser vistos extensos vestígios arqueoló- O deserto tomou conta de Filadélfia, não sendo visíveis quaisquer estruturas arqueológicas, https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/qasr-qarun-and-medinet-quta/. gicos sob a areia e encontrar grandes quantidades de fragmentos de cerâmica espalhados pela área. Contudo, a importância de Filadélfia reside no facto de muitos dos retractos de múmias existentes em variadíssimos museus espalhados pelo mundo virem da necrópole deste local, descobertos por habitantes locais no século XIX enquanto tratavam dos seus campos e comprados por um negociante europeu, que posteriormente os vendeu para vários museus. Encontraram-se também aqui muitos papiros, incluindo o arquivo de Zeno, um mordomo de Apolónio, com registos cheios de detalhes da 80 Snape, 2014: 134. 35 produção agrícola, importantes para perceber como funcionava a administração desta cidade ptolemaica e a vida quotidiana da comunidade agrícola aí residente.81 Dionísias (Qasr Qarun) Tal como em Filadélfia, a cidade de Dionísias (Qasr Qarun), na orla oeste do Faium e na ponta sudoeste do lago Birket Karun, também tinha um plano ortogonal com insulae quadradas de 50 por 50 metros. Fundada no século III a. C., tinha como principal característica ser o início da rota das caravanas para o oásis Bahareia. Em Dionísias havia dois templos, sendo o maior, por vezes chamado de «Templo de Pedra», construído em calcário amarelo durante a Época Baixa, tendo sido restaurado no início do século XXI Templo maior de Dionísias, vendo-se já alguns restauros, https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/qasr-qarun-and-medinet-quta/ pelo Serviço de Antiguidades Egípcias. A planta do templo mostra que havia muitas divisões no interior, sendo que catorze dessas divisões davam para um corredor central que conduzia às três capelas do templo. Infelizmente apenas sobreviveram um pátio e a área das capelas sem inscrições, mas a estrutura existente ainda conservou o telhado, que pode ser acedido por uma escada. Aliás, o templo tem diversas escadarias que levam a vários níveis acima e abaixo da parte principal da estrutura. O telhado continha várias estruturas, que também foram restauradas, com relevos de Sobek, 81 https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/qasr-qarun-and-medinet-quta/, (consultado em 21-04-2023). 36 ou Sukhos, e um rei ptolemaico não identificado. O templo menor foi construído no Período Romano, principalmente, com adobes, mostrando o seu interior colunas jónicas, tendo sido dedicado a Sobek-Ré. Devido ao material de construção utilizado, apenas o núcleo quadrado da estrutura sobreviveu, estando a maioria dos edifícios periféricos destruídos. Com o intuito de proteger a cidade contra as tribos beduínas que vinham de oeste, foi mandada construir pelo imperador Diocleciano a oeste deste templo uma fortaleza. Foi construída com adobes, e apresenta relevos de Sobek, ou Sukhos, e de um rei ptolemaico sem nome. As características externas das fundações ainda são visíveis, mas a maior parte da fortaleza está destruída, embora a internamente tenha partes restauradas. Tal como na maioria das fortalezas romanas no Egipto, tinha uma torre quadrada em cada canto, como postos de vigia. No seu interior ainda podem ser vistos restos de uma basílica cristã. Actualmente pouco resta da cidade antiga para ver, pois grande parte do local está agora coberto pelo deserto, embora ainda sejam visíveis contornos de algumas das estruturas, como é o caso dos banhos municipais romanos, e alguns restos de vilae romanas, tendo sido conservados mesmo alguns frescos em paredes internas.82 Assinalemos, ainda, que a cerca de 5 quilómetros a noroeste de Dionísias, na orla oeste da escarpa do deserto, ficam os restos de outra cidade ptolemaica, designada hoje por Medinet Quta. Localizada num terreno elevado da orla do deserto com vista para a área cultivada, é um local bastante inacessível, difícil de encontrar e que exige uma longa caminhada para chegar lá, o que, de certo modo, justifica a inexistência de marcação na maioria dos mapas. No entanto, existem aí ruínas de casas no topo do monte, até agora pouco estudadas.83 Tebtunis (Tell Umm el-Breigat) Localizada a sul do Faium, Tebtunis é hoje conhecida pelo seu nome árabe Tell Umm el-Breigat, tendo sido uma das maiores cidades greco-romanas da região, provavelmente fundada no Império Novo, embora os vestígios actuais sejam ptolemaicos e romanos. Habitada até os tempos islâmicos, sofreu recentemente uma série de obras de restauro, incluindo várias habitações e os banhos romanos da cidade e, para maior preservação, foram cobertas de areia as paredes ainda existentes, algumas com o reboco original e restos de pintura. Muitas das casas da cidade foram construídas em adobes e os seus vestígios estão espalhados por toda a área urbanizada. Contudo, para a construção das vilae maiores e das estruturas mais importantes, usaram adobes queimados ou pedra. Várias destas habitações foram reconstruídas. 82 83 https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/qasr-qarun-and-medinet-quta/ (consultado em 21-04-2023). https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/qasr-qarun-and-medinet-quta/ (consultado em 21-04-2023). 37 Um longo caminho processional pavimentado em pedra que atravessa a cidade e conduz até à entrada do pequeno templo dedicado a Soknebtunis («Sobek, Senhor de Tebtunis»), datado do período ptolemaico. A entrada do templo é guardada por duas estátuas de leões em calcário amarelo, de características claramente gregas. No extremo sul da área do templo, no seu eixo este-oeste, havia um pátio com grandes colunas de calcário branco. Trabalhos recentes em torno deste templo, permitiram encontrar centenas de óstracos e papiros gregos e demóticos. Aliás, nas escavações de uma das casas da cidade foi descoberta uma pequena biblioteca do Período Romano associada ao templo, pois esta colecção de papiros, conhecida como Papiros de Tebtunis, continha numerosos documentos literários, médicos e administrativos, bem como textos religiosos do templo. Pátio de colunas brancas no eixo este-oeste a sul do templo Soknebtunis. https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/17/umm-el-baragat/ Em Tebtunis também havia um grande cemitério de crocodilos, tendo aí sido encontrados mais de 1.000 crocodilos mumificados, alguns embrulhados em folhas de papiro. A cerca de 10 quilómetros a noroeste de Tebtunis, perto da actual aldeia de el-Gharaq el-Sultani, numa zona que hoje é de agricultura, foi identificado um antigo pântano de papiros dos tempos faraónicos. É possível que sob estes campos cultivados à volta de Tebtunis, tenham desaparecido várias aldeias antigas, entre elas uma aldeia agrícola ptolemaica chamada Kerkeosiris, pA-grg-n-Wsir em egípcio, («O povoado de Osíris»), mencionada nos Papiros de Tebtunis.84 84 https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/17/umm-el-baragat/ (consultado em 21-04-2023). 38 Soknopaiu Nesos (Dimai) A norte do lago Birket Karun, a cerca de 8 quilómetros ao sul de Qasr el-Sagha e a 27 quilómetros a oeste de Karanis (Kom Aushim), localiza-se Dimeh el-Siba («Dimeh dos Leões»), mais conhecida simplesmente por Dimai, a antiga cidade greco-romana chamada de Soknopaiu Nesos, nome grego que significa «Ilha do deus-crocodilo», sem que haja qualquer certeza de que alguma vez tenha sido uma ilha. Contudo, recordamos que em tempos o lago chegou a Qasr el-Sagha, ficando Soknopaiu Nesos numa zona que nessa altura estaria inundada e, embora se admita que a cidade foi fundada no Período Ptolemaico, há indícios de que ela pode ter sido construída sobre um povoado neolítico anterior. Algo isolada e distante, provavelmente albergava uma guarnição de soldados romanos que defendiam a fronteira norte do Faium, dos ataques de bandidos do deserto. Na cidade havia dois templos que ficavam numa posição sobranceira por terem sido construídos sobre uma elevação natural e estavam circunscritos em paredes de adobe. O templo a norte, agora em Edifício de adobes ao lado do templo sul em Soknopaiu Nesos. Imagem de Roland Unger, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22682806 ruínas, foi dedicado a Soknopaios, outra forma do deus-crocodilo Sobek, e apenas as fundações de pedra chegaram aos dias de hoje. O templo a sul foi construído com adobes e pedra, sendo, provavelmente, de uma data posterior. Ainda assim, o local está bem preservado, com um longo caminho processional conhecido como «Avenida dos Leões», que ligava o templo de Soknopaios a um cais que ficava à beira do lago. O cais ainda tem dois pilares e degraus de calcário no seu lado sul. As casas da cidade erguiam-se de ambos os lados da avenida e seriam do tipo das casas de vários andares da época. Algumas das paredes de adobe da cidade ainda conservam cerca de dez metros de 39 altura, podendo ser vistas de longe. Também é possível encontrar muitos detritos e cacos de vasos um pouco por todo o lado. A sudoeste da cidade situa-se um cemitério romano.85 Teadélfia (Batn Ihrit) Situada na fronteira leste do Faium, a cerca de 8 quilómetros a sudoeste de Birket Qarun, fica a antiga cidade militar de Teadélfia, que, como Filadélfia do lado este, também recebeu o nome em homenagem a Arsinoé, irmã de Ptolomeu II Filadelfus. Infelizmente, Teadélfia é o local que exibe as maiores mudanças dos antigos povoados na parte oeste do Faium desde o início do século XX. Como é possível ver em algumas fotos, em 1920 caminhava-se em avenidas ladeadas de casas ainda de pé até o segundo andar, e hoje quase nada resta das estruturas de adobe da antiga povoação. Num enorme e desolado terreno, restam apenas alguns vestígios de construções de adobe e, sobretudo, de edifícios de tijolos cozidos, incluindo balneários, lagares de vinho e estruturas produtivas. Hoje há muito pouco para ver no local, para além da vasta área cheia de restos de cerâmica e muitos túmulos na orla do deserto.86 Mesmo assim, Teadélfia merece uma visita, pois ainda mostra onde as estruturas de tijolo cozido dos banhos e algumas instalações de produção estavam implantados e como a aldeia integrava os seus cemitérios e canais. Podemos considerar Teadélfia composta por duas partes: a este a área principal, com cerca de 500 metros de largura por 650 metros de comprimento, onde se situava a antiga povoação e, a oeste, os cemitérios. No canto noroeste, cobrindo uma área de cerca de 200 metros, existem numerosas sepulturas escavadas num socalco rochoso, provavelmente um cemitério romano. Cobrindo uma área de cerca de 270 metros de largura por 500 metros de comprimento de este-oeste, existem grandes sepulturas escavadas também no socalco rochoso, algumas construídas de adobes, do que seria, provavelmente, um cemitério ptolemaico. Mais a norte, os vestígios cerâmicos existentes indicam restos de mais túmulos romanos. Todo este espaço está agora cercado de terra verde, tendo a norte o Bahr Qasr el-Banât, um canal moderno. O sítio arqueológico de Teadélfia mostra, logo à frente de onde a estrada agora chega ao local, dois altos pilares, um com seis e outro com três metros de altura, de adobes amarelados e com muita palha, o que resta do templo ptolemaico dedicado a Pneferos, outra variante de Sobek, que, quando 85 https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/qasr-el-sagha-and-dimai/ (consultado em 21-04-2023). Mas, o que justifica tal destruição? Quando os antigos canais foram reactivados no final do século XIX para criar novos campos de produção, Teadélfia situava-se no ponto mais ocidental dos campos recém-criados e, talvez por isso, tenha sofrido mais com os sabbakhin do que Filadélfia e Dionísias, situadas mais para oeste de Teodélfia. Um sabbakhin é um camponês egípcio que se dedica a colher solo fértil para espalhar pelos campos. O seu trabalho é um desastre para os egiptólogos porque o que eles recolhem são os adobes dos sítios arqueológicos, ricos em materiais orgânicos e, assim, destruindo os vestígios arqueológicos que, normalmente, têm muito mais do que as simples estruturas construtivas. Sabbakhin deriva da palavra árabe sabbakh, que se traduz por «fertilizante», um termo usado em inglês para descrever, sobretudo, os adobes retirados e desfeitos dos sítios arqueológicos, cujo material orgânico pode ser usado tanto como fertilizante agrícola, quanto combustível para incêndios devido à utilização de palha e outras fibras naturais na sua composição, Baines e Málek, 1980: 227. 86 40 Restos de estruturas em adobes do Período Ptolemaico, ao lado de construções tipicamente romanas feitas com tijolos cozidos e unidos com opus signinum. https://fayoumegypt.com/theadelphia-batn-ihrit-khawagat/ foi escavado em 1912-13, ainda estava quase completo. A oeste desses pilares temos restos de um edifício de dois andares que pertenceria a umas termas romanas, havendo mais à frente umas segundas termas romanas. O vestígio mais proeminente em Teadélfia é uma estrutura de tijolos cozidos e totalmente rebocada com opus signinum,87 com três abóbadas, que mantêm ainda uma altura de mais de três metros, situado do lado leste do terreno, considerado como parte de uma instalação balnear e é claramente do Período Romano. Espalhadas pelo local, encontram-se mós bem preservadas, pertencentes ao que parecem ter sido pequenas casas de banho com chão de seixos e banheiras individuais, e fragmentos de colunas e estátuas. Preservadas no Museu Egípcio do Cairo e agora no Grande Museu Egípcio, em Guiza, há ainda alguns exemplos da decoração pintada de algumas das casas desta povoação. Na extremidade sudeste da povoação, são ainda visíveis quatro grandes cubas para a fermentação do vinho, que parecem ser do Período Romano. Agrupadas em pares, cada unidade distando cerca de 80 centímetros do seu par, e os dois grupos é cerca de 25 metros um do outro. Todos semelhantes entre si, parecem ter formado uma grande instalação produtiva. Exemplos semelhantes de produção de vinho são muitas vezes difíceis de datar, mas o que se sabe é que o consumo de vinho no Egipto aumentou no Período Romano, e, posteriormente, quando a maioria dos exemplos preservados foram, provavelmente, construídos. Nestas quatro cubas, que deviam permanecer abertas, seria produzida 87 Opus signinum é um material de construção criado e usado pelos Romanos. É feito de restos de cerâmica e telhas esmagados em pedaços muito pequenos, misturados com argamassa temperada com cal. Aplicado e batido com um pilão, tornando-se um cimento mais sólido e duradouro do que outras substâncias de natureza semelhante. 41 Quatro cubas para a fermentação do vinho em opus signinum do Período Romano, https://fayoumegypt.com/theadelphia-batn-ihrit-khawagat/#jp-carousel-5618. uma quantidade considerável de vinho, cujos cálculos permitem dizer que, no seu conjunto, podiam conter cerca de 100 hectolitros ou mais. Segundo o Papiro SB XIV 12054, pertencente ao Arquivo Heroninus (Arquivo 7º), há referência a 14 dos 20 vinhedos que eram propriedade de Appianus, em Teadélfia, tendo sido produzidos cerca de 112 hectolitros no ano de 253. Quem sabe se não foram produzidos nestas quatro cubas, enquanto a vindima das restantes vinhas pode ter sido processada noutras adegas que se conservaram parcialmente no local?88 Bacchias (Kom el-Atl) Fundada no período ptolemaico sobre um povoamento pré-histórico anterior, a antiga cidade de Bacchias, a actual Kom el-Atl, que significa «O Lugar do Tamarisco», ficava no extremo norte do Faium, a sudeste de Karanis e a noroeste de Filadélfia, sendo uma cidade fronteiriça na estrada do deserto que ligava Mênfis à província de Arsinoé. Fundada, provavelmente, no século III a. C. terá sido abandonada por volta do século IV da nossa Era. Nas suas ruínas ainda são visíveis bastantes restos de casas de adobe e de uma grande estrutura, também de adobe, que se pensava que pertencesse ao templo da cidade. Contudo, escavações na década de 1990, puseram a descoberto as fundações de uma estrutura de pedra sob os edifícios de tijolos de barro, que se pensa ter sido um templo dedicado 88 https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/qasr-qarun-and-medinet-quta/; https://fayoumegypt.com/theadelphiabatn-ihrit-khawagat/, (consultados em 21-04-2023). 42 A cidade greco-romana de Bacchias, no extremo nordeste da província de Faium a Soknobkonneus, outra designação de Sobek. Agora acredita-se que a estrutura de adobe pudessem ser um conjunto de dispensas anexadas ao templo de pedra. Embora a maior parte do local nunca tenha sido completamente escavado, escavações feitas nos finais do século XIX encontraram três potes de cerâmica cheios de moedas, papiros, alguns retractos do Faium e outros artefactos. E já nos finais do século XX encontraram as fundações de uma grande estrutura bem construída aparentando ter alguma importância, com restos de móveis de madeira embutidos e lâmpadas de cerâmica, uma pequena esfinge de calcário com uma inscrição demótica, fragmentos de muitos papiros gregos e romanos, incluindo o que foi designado por arquivo de Hórus e Tapekisis, muitas moedas da mesma época, vários fragmentos de estátuas, para além do espaço estar repleto de cacos cerâmicos.89 Heracleópolis Magna (Ihnasia el-Medina) Pela sua importância e por estar perto da entrada do Faium, na margem direita do Bahr Yusuf a cerca de 15 km da margem esquerda do rio Nilo, a 141 km a sul do Cairo, fica Ihnasia el-Medina, a Neninesut egípcia que foi capital da 20ª província do Alto Egipto, e, depois, a Heracleópolis Magna dos Gregos cujo deus principal foi o deus de cabeça de carneiro Harsafés, o Herichef egípcio («Aquele que está no lago»), que acabou por ser identificado com o Hércules grego. Tal como muitos vestígios arqueológicos da região, as ruínas do templo do deus foram escavadas primeiro por E. Naville (1891- 89 https://egyptsites.wordpress.com/2009/02/15/kom-el-atl/ (consultado em 21-04.2023). 43 -1892), depois por Flinders Petrie (1904). Uma expedição espanhola iniciada por Martín Almagro em 1966, e que desde 1984 é dirigida por Maria del Carmen Pérez Die tomou conta do local e do seu estudo, um conjunto de extensas ruínas que cobrem uma área de 67 hectares e incluem uma série de cemitérios e templos que vão do Império Médio ao Período Romano. Entre outros, Josep Padró também aqui prestou colaboração, em 1984, sobretudo na necrópole do Primeiro Período Intermediário.90 Heracleópolis Magna, muito perto da entrada do Faium, na actual província de Beni Suef https://fundacionpalarq.com/en/item/heracleopolis-magna/. A transferência da capital de Mênfis para Heracleópolis, sem que Mênfis tenha deixado de ser um centro económico e administrativo importante, possivelmente terá tido origem na pressão dos asiáticos e líbios no Delta, em simultâneo com o facto de ter atingido o «ponto de saturação» relativamente às terras disponíveis, à dificuldade de comunicação face às constantes mudanças do rio e à dificuldade de albergar quem vinha do deserto e até os que já viviam no Vale. Cumulativamente terão também interferido nesta questão problemas relacionados «com o aparelho fiscal e coercivo do Estado» e com «uma redistribuição da riqueza do país em proveito dos mais desapossados, e um aprovisionamento dos funcionários», que ajudaram a criar desequilíbrios e necessidades de mudança.91 A emergência de Heracleópolis e consequente elevação do Faium «como uma unidade agrícola/política», parecem marcar a mudança.92 Fossem quais fossem as razões, esta cidade foi a capital das IX e X dinastias, que viria a entrar em conflito com os governantes tebanos da XI dinastia, até estes acabarem por reunificar o Egipto. Durante cerca de um século o Egipto foi partilhado por reis heracleopolitanos e tebanos, numa coexistência pouco pacífica. Cada governador esforçava-se por manter a independência da sua província fazendo e desfazendo alianças sucessivamente, até à vitória final de Tebas. 90 Padró, 1999: 23. Moreno Garcia, 1997: 11-12. Cf. Moreno Garcia, 1999: 209-269. 92 Giddy, 1997: 197-199. 91 44 O primeiro local a ser escavado, ainda nos finais do século XIX, foi, no lado sudoeste da cidade, um templo fundado no Império Médio, ou mesmo anteriormente, dedicado à divindade local Herishef, um deus da fertilidade, em que Hry-S.f significa «Aquele que está no seu lago», pois havia no complexo do templo um lago sagrado, que fontes de diversas épocas designam por Maati de Heracleópolis, ou seja, o Lago da Verdade de Heracleópolis, nomeadamente no Conto do Camponês Eloquente.93 Ampliado na XVIII dinastia e de novo na XIX dinastia durante o reinado de Ramsés II, que lhe mandou adicionar um salão hipostilo. O Templo de Herishef tinha um pátio com câmaras laterais com grandes estátuas de Ramsés II à frente das colunas aí existentes. Seguia-se um hall de entrada com uma fileira dupla de oito colunas palmeiriformes, possivelmente datando do Império Médio, ou mesmo do Império Antigo. Ao hall seguia-se um corredor com seis pilares que conduzia às câmaras internas do templo. Há muitas bases de colunas e belos relevos do período ramséssida em diversos blocos. O templo continuou a ser usado durante o Terceiro Período Intermediário e no Período Tardio. A sudeste do templo Herishef, foi construído durante o reinado de Ramsés II um segundo templo menor. Os trabalhos mais recentes concentraram-se nas áreas das necrópoles do Primeiro e do Terceiro Períodos Intermediários, possibilitando aumentar o conhecimento sobre os respectivos períodos de ocupação. Aliás, a esse respeito, a necrópole do Primeiro Período Intermediário é de grande importância, uma vez que o sítio da cidade desta época não foi ainda descoberto. Situada no interior da muralha sul da cidade, junto à povoação moderna, deu a conhecer uma série de túmulos que revelaram, entre outras coisas, um texto mural de uma das primeiras versões dos «Textos dos sarcófagos», incorporando trechos anteriores dos «Textos das pirâmides». Os túmulos embora se encontrassem em grande confusão quando foram encontrados, foram construídos com pedra e adobes e alinhados em ruas. Alguns ainda continham estelas, portas falsas e mesas de oferendas, bem como muitos artefactos, relevos nas paredes e cenas pintadas da festa funerária. As inscrições nas estelas forneceram informações importantes sobre os proprietários dos túmulos sendo possível atribuir nomes e títulos a figuras proeminentes da época ligadas à corte heracleopolitana. É provável que esta necrópole do Primeiro Período Intermediário tenha sido reutilizada durante o Império Médio, com os túmulos anteriores sendo quase totalmente destruídos. Até ao início dos anos 90 do século XX não existia nenhum vestígio que fizesse crer numa vitória bélica de Tebas sobre Heracleópolis. A prova de que parece ter sido, efectivamente, uma derrota militar e não qualquer tipo de aliança ─ um casamento dinástico, por exemplo, como chegou a ser proposto94 ─ vem-nos deste local, da necrópole do Primeiro Período Intermediário. Embora a datação absoluta das diferentes etapas esteja ainda por fazer e a datação relativa, obtida através da tipologia 93 94 Canhão, 2014: 381 e nota 66. Quirke e Spencer, 1995: 38-39. 45 das estelas de falsa porta, da cerâmica e de uma versão dos «Textos dos Sarcófagos», levante dúvidas a alguns investigadores, o anterior responsável pelos trabalhos nesta jazida de Heracleópolis, Raúl López-López, afirmou sobre a necrópole do Primeiro Período Intermediário «que no interior dos três túmulos, que apareceram violados e com cadáveres de intrusos no seu interior, acharam-se objectos que confirmam o saque na época heracleopolitana e que os seus primitivos proprietários viveram nesses anos».95 Mais tarde Pérez Die acrescentaria: «à primeira vista destaca-se o estado de destruição do nível correspondente ao cemitério com blocos enormes de pedra quebrados intencionalmente, revoltos e dispersos por toda a área. Fragmentos de uma mesma peça podem aparecer muito distantes uns dos outros, o que demonstra que o lugar foi saqueado e destruído selvaticamente».96 Portanto, conclui-se que durante a IX e a X dinastias, o cemitério esteve em actividade e terá sido destruído, muito provavelmente pelos tebanos, de forma selvática, deitando por terra as hipóteses pacíficas para o fim do conflito. Era uma necrópole de nobres e altos dignitários; as inscrições, quer das estelas de falsa porta, quer dos fragmentos das paredes, permitem identificar os nomes e títulos dos que ali foram sepultados, conservando-se de pé um grande túmulo de pedra «com as paredes cobertas de pinturas e baixos-relevos que mostram desfiles de servidores, oferendas funerárias e, sobretudo, uma versão dos Textos dos Sarcófagos».97 Já antes Pérez Die afirmara que os túmulos do Primeiro Período Intermediário de Ihnasia el-Medina eram decorados com «relevos de grande qualidade e beleza que demonstram a importância da cidade neste período».98 Esta última afirmação releva ainda mais o declínio de Mênfis face a Heracleópolis. Sakara recebeu no Primeiro Período Intermediário a preferência de particulares que fizeram os seus túmulos junto das pirâmides de Teti e de Pepi II.99 São túmulos de «características invulgares» nos quais o estilo menfita teve dificuldade em sobreviver, pois muitas mastabas de câmara foram substituídas por câmaras de falsa porta onde era colocada uma estela e nos relevos as cenas foram bastante abreviadas: «a estela colocada nas grosseiras paredes era a única decoração de capelas de má qualidade pertencentes a um período tardio durante as IX e X dinastias. O desenho e modelagem do homem e dos animais era esquemático, e o velho naturalismo deu lugar a modelos de cores confusas no gado e na pintalgada pele de pantera da roupa cerimonial do proprietário e do tracejado das asas dos pássaros por cima da pilha de oferendas em cima do altar ritual».100 95 Pérez Die, 1991: 99. Pérez Die, 1991: 96. 97 Pérez Die, 1992: 20. 98 Pérez Die, 1991: 96. 99 Baines e Málek, 1991: 146. 100 Smith, 1998: 80. 96 46 Ainda longe de se conhecer o urbanismo completo da antigo da cidade e a sua topografia,101 há já, no entanto, elementos suficientes para se poder pensar que, embora importante, Heracleópolis parece ter permanecido uma cidade provincial em muitos aspectos (para além do templo de Herishef não se conhecem, ainda, outras grandes estruturas arquitectónicas), o que leva a admitir que Mênfis, mantendo-se sob controlo heracleopolitano, deverá ter permanecido um importante centro administrativo e comercial, residindo o principal interesse do Faium na agricultura, para um efectivo controlo dos excedentes que, como vimos, faltavam. Ihnasia el-Medina é não só o exemplo da tentativa dos príncipes de Heracleópolis restaurarem o poder real menfita e o Estado egípcio, a sua luta contra o caos, mas sobretudo o próprio espelho da fragilidade e fragmentação política do Primeiro Período Intermediário, quebradas pela impossibilidade do Egipto continuar a aceitar a fraqueza e o divisionismo do poder real. Assim que Nebhetepré Mentuhotep II, encabeçou a renovada onda unificadora sulista, tudo voltou à «primeira vez», reposicionou-se Maat e o Estado egípcio renasceu. No entanto, já não era possível apagar as calamidades, a guerra civil e todos os horrores que o Egipto vivera neste período e que acabariam por ter «um efeito intelectual perturbador».102 Um pouco a norte desta necrópole, igualmente no interior das muralhas da cidade, outra área de escavações revelou sepulturas do Terceiro Período Intermediário, mais propriamente das XXI à XXVI dinastias. São também túmulos construídos em pedra e adobes, que foram reutilizados para enterros sucessivos. Há exemplos de câmaras tumulares ligadas por corredores entre elas e de pisos e lajes de cobertura novos, colocados de acordo com as necessidades dos novos proprietários. Abundam neste cemitério muitos nomes líbios em artefactos, incluindo um selo real de Osorkon, que confirmam a presença líbia neste período caótico e revelam ligações políticas, religiosas e militares entre Heracleópolis e Tanis, os dois centros de poder no norte do Egipto durante o início do Terceiro Período Intermediário. Este cemitério permitiu também verificar as relações comerciais dos fenícios com a região neste período. Heracleópolis Magna continuou a existir nos períodos romano, bizantino e islâmico, passando a ser designada por Ihnasia el-Medina. 101 Uma das questões ainda sem resposta, por exemplo, é saber com exactidão onde passava o Bahr Yusuf. Aceitando que o relato do Conto do Camponês Eloquente assenta no efectivo conhecimento de Heracleópolis durante a XII dinastia, quando chega a Neninesu, Khunanup começa por procurar o Grande Intendente que encontra a sair da porta de sua casa, aparentemente por uma saída directa para o braço de água onde estava a barca posta à disposição deste funcionário pelos serviços administrativos, para a realização das tarefas que lhe competiam. (Canhão, 2014: 376-377). Por enquanto, apenas se sabe que passava perto da cidade. As incertezas ligam-se, principalmente, à natureza do solo e sua deterioração motivada pelas cheias: em determinadas zonas a deslocação das águas e o consequente depósito de sedimentos provocavam alterações ao leito do rio. Só aturados estudos arqueológicos e geológicos permitirão vir a concluir algo a este respeito. O caso mais notório de uma situação desta natureza é o da cidade de Mênfis que, pelos mesmos motivos, se foi deslocando ao longo da sua história. Também aí estão por determinar ainda, a localização de uma série de estruturas ligadas aos diversos locais por onde foi passando a cidade, incluindo o seu (ou seus!) porto, referido em inúmeros documentos (Jeffreys, 1985: 48-51). 102 Trigger, Kemp, O'Connor e Lloyd, 1997: 104. 47 Vista general da necrópole do Terceiro Período Intermediário (XXII-XXV dinastias, 850-650 a. C.). Foto de Carmen Pérez Die, https://fundacionpalarq.com/viaje-al-esplendor-de-heracleopolis-magna-una-de-las-ciudades-mas-importantes-en-el-periodo-faraonico-y-copto-del-antiguo-egipto/. Os retractos do Faium Embora a prosperidade do Faium possa ser vista em diversos exemplos, os melhores e mais famosos são os retractos do Faium, pinturas dos rostos de membros da elite da comunidade em painéis de madeira, que eram colocados nas suas múmias. A incrível vitalidade das pinturas, especialmente o seu olhar expressivo, torna fácil perceber por que o seu descobridor Flinders Petrie, no final do século XIX acreditasse que os retractados devessem estar vivos quando as pinturas foram feitas e que deviam ser mantidas nas paredes de suas casas até a sua morte. Contudo, já se comprovou que essas pinturas foram feitas após a morte dos indivíduos. Elas representam detalhadamente e com precisão as roupas, jóias, penteados e objectos pessoais importantes das pessoas naquele tempo. A riqueza óbvia dos temas reflecte a prosperidade da região nestas obras de alta qualidade criadas por uma sociedade abastada e estável. As pinturas, que reflectem a atenção que foi dada ao Faium durante o Período Greco-romano, foram feitas praticamente em tamanho natural não excedendo praticamente os 35 centímetros de altura e os 18 centímetros de largura,103 e fundem aspectos das artes e das 103 Cf. Geoffroy-Schneiter, B., 1998: 11. 48 culturas egípcia e grega. Foram encontradas em necrópoles como Hauara, Arsinoé (Medinet elFaium), Antinópolis ou Filadélfia, mas também em Tébas, Mênfis ou Sakara. Exemplos de retractos do Faium de homens, mulheres e crianças (https://www.google.com/search?q=retratos+de+fayum&tbm=isch&rlz=1C1FCXM_pt-PTPT977PT977&hl=ptPT&sa=X&ved=2ahUKEwiE4s2pssf-AhUpmicCHbAeAQkQBXoECAEQNA&biw=1349&bih=617). 49 A egiptóloga Helen Strudwick, responsável pela colecção de antiguidades egípcias do Museu Fitzwilliam, em Cambridge, escreveu: «Os retractos do Faium são peças de arte verdadeiramente originais, representando uma síntese do estilo naturalista clássico de retractos, com o antigo conceito egípcio de morte como um portal para uma existência contínua no além. Os retractos forneceram aos egiptólogos uma riqueza de informações sobre os membros de alto status da sociedade greco-romana no Egipto ─ em especial suas roupas, adornos e características físicas ─ além de serem obras-primas de arte por si mesmos.»104 Bibliografia: Araújo, L. M., 2005. Mitos e Lendas do Antigo Egipto, Lisboa: Centralivros. Araújo, L. M. (dir.), 2001. Dicionário do Antigo Egipto, Lisboa: Editorial Caminho. Araújo, L. M., 2001. «Faium», em Dicionário do Antigo Egipto, Lisboa: Editorial Caminho, 361-362. Araújo, L. M., 2011. Os Grandes Faraós do Antigo Egito, Lisboa: Editora «A Esfera dos Livros». Baines, J.; Málek, J., 1991. Egipto, Deuses, Templos e Faraós, Lisboa: Círculo de Leitores. Bard, K. (ed.), 1999. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt, Londres, Nova Iorque: Routledge. Bonhème, M.-A. e Forgeau, A., 1988. Pharaon. Les Secrets du Pouvoir, Paris: Armand Colin Éditeur. Bonnamy, Y e Sadek, A., 2010. Dictionnaire des Hiéroglyphes, Arle: Actes Sud. 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